"[...] Sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!"
segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Doce querubim
Tu colores meus dias com alegria
E me fazes enxergar
O quão belo é viver.
Oh adorada criatura,
Tão bela tão serena...
Tu curaste meu espírito
Libertaste meu coração.
Oh arcanjo celeste,
É com pesar que te deixo partir
Pois bem sei
Que há alguém precisando,
Assim como um dia eu,
Preencher as lacunas de um triste coração.
Vá, faça sua parte,
Bondoso Serafim,
E tenha certeza de que
Seu quinhão ficou em mim
E agora, que te vejo
Afastando-se de mim
Restrinjo-me ao consolo
De fazer alguém sorrir
E ver em teus olhos,
Oh doce querubim
Que também estás feliz.
quarta-feira, 21 de outubro de 2009
A carta
- Lud, - meu pai estranhara meu recuo. – aconteceu alguma coisa?
Era coincidência demais. Porém, minha mãe estava morta e não podia mandar cartas.
- Não, só a correspondência. – disse-lhe sorrindo. Encaminhei-me até sua mesa e lhe entreguei as cartas. A que me tinha chamado atenção estava por cima, então aguardei sua reação. Ele olhou o nome e surpreendeu-se tanto quando eu. Seus olhos vacilaram para meu rosto, em pânico, e pude vê-lo empalidecer.
- Coincidência, não? – questionei. Ele apenas assentiu, olhando o envelope ainda em sua mão.
- Não vai abrir?
- Depois. – sua resposta foi dura e ligeira.
- Ah, qual é pai? Existem pessoas com o mesmo nome! – sua reação me deixara confusa. Por que tanto... Medo?!
- Saia. – ele estava sendo extremamente autoritário e isso me lembrou do quanto odeio quando ele me trata como criança.
- Por quê? – Encarei-o em busca de uma resposta coerente. Nada. – Não precisa ficar assim pai. Você sabe melhor do que eu que essa carta não pode ser da minha mãe. Ela está... – Calei-me, só então compreendendo aquela situação.
- Saia, Ludmila! – Minha mãe não estava morta.
- Essa carta é de minha mãe?
- Sua mãe morreu.
- Será?
- Eu já te contei toda a história minha filha, por favor...
- Chega papai! – Eu estava cansada de meias verdades; cansada de suas fugas quando o assunto era minha mãe; cansada do jeito infantil que ele me tratava; e não havia hora melhor para reivindicar minha frustração. – Me conte a verdade.
- Você já a conhece! – Ele baixou os olhos finalizando a conversa e ocupando-se de outras coisas. Mas eu resisti. Se aquela carta era da minha mãe, então ela não morrera ao me dar a luz como ele mesmo me dissera... Mas onde ela estava então? Por que nos abandonara? Por que meu pai mentiu todo esse tempo sobre isso? Se eu não descobrisse tudo naquele momento, jamais o faria.
- Só a sua versão mal contada. – Retruquei, cruzando os braços no colo.
- Desculpe por ser um mau contador de histórias. – Ele me olhou magoado.
- Não, não é isso... Seu mal pai, é sempre falar comigo as palavras pela metade. Você não vê que eu cresci? – ele baixou os olhos novamente e ocupou-se do trabalho – Que já dá pra contar comigo do seu lado? – seu modo de agir me enfurecia. Parecia que minhas palavras não tinham importância, que eu não passava de uma criança chorona. – Olha pra mim, pai! – Bati meus punhos com força sob a mesa. Ele me olhou com repreensão. Eu nunca tinha me exaltado com ele antes. Senti-me um pouco envergonhada, mas ele estava fazendo pouco caso das coisas que eu julgava importante. Aprecei-me a falar, justificando meus atos. – Eu não gosto quando estou falando com você e você faz essa cara de muito ocupado. Parece que tudo o que eu digo é bobagem. – lamentei.
- E não é? – Ele me olhou com desdém.
- Não é! - a fúria que brilhou em seus olhos quando voltei a aumentar o tom, me fez lembrar de quem ele era. – É sério. – completei em tom normal.
Ele permaneceu em silêncio, apenas me olhando. Seu rosto indecifrável.
– Não há nada pior pra um filho do que o silêncio dos pais... – lamentei em baixa voz. E então me lembrei de algo que sempre trouxe comigo e que meu pai nunca tivera conhecimento. Algo que eu sabia que o faria vacilar; que o faria me dizer toda a verdade. Eu estava longe, vagando por minhas lembranças e só pude compreender palavras soltas que não faziam sentido pra mim. Tomei coragem e o interrompi:
- E... Se eu te disser que toda a noite eu sonho com ela? – uma lágrima correu por meu rosto, e eu já não via mais meu pai, e sim o exato instante em que sempre encontrava minha mãe. – Ela vem na minha cabeceira e me dá um beijo de boa noite...
- Para com brincadeira, Ludmila.
Foquei meu pai novamente e o encontrei apavorado.
- Eu juro! Posso até dizer o perfume que ela usa. – Era algo floral, doce e que só por lembrar do cheiro meu coração pulava de alegria. Vi o machão a minha frente se desmanchar. Meu pai tinha um bom coração, mas só agora pode ver a dor que eu trazia. Contornei a mesa, aproximando-me dele. Abaixei-me, tomando suas mãos entre as minhas. Ele estava cabisbaixo.
- Fala da minha mãe, pai. – ele me fitou – Chega de ficar inventando como se eu fosse um bebezinho. Eu sou uma mulher. – Ambos trazíamos lágrimas nos olhos. – Olha pra mim, eu sou uma mulher. – Ele respirou fundo.
- Eu sei. – então me apertou num abraço. Compartilhamos nossa dor, liberando-a pelo choro. Embora sempre juntos, eu jamais estivera tão perto dele. Eu estava certa de ter rompido a barreira que me impedia de entender seu coração. Ficamos ali por alguns minutos e quando o abraço findou, aninhei-me a seu lado para ouvir, pela primeira vez, a completa história de nossas vidas.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Como matar seu professor de matemática
- Como se faz o MMC?
- São quantos dividendos?
- Só um.
- Então é ele mesmo. Que número é?
- Três.
- Então vai lá: três dividido por um?
- É... hum... Três?
- Isso. Multiplica por três...
- Nove.
- Três dividido por um?
- É... Pera aí... hum... Três?
- É! Multiplica por dois...
- Seis.
- Três dividido por três?
- Três.
- O quê?! Três dividido por três? Meu Deus criatura...
- Ah, não... É um.
- Isso! Multiplica por oito...
- Oito.
- Isso. Aí tu corta o três, que é dividendo... E descobre o valor de x que agora ta fácil de saber.
- Ta... Mas nessa conta que tu fez... De onde tu tirou esse doze?
-Dãã! Se nove x é igual a seis mais oito, então nove x é igual a doze.
- Doze?
- É! Quanto que é seis mais oito?
- Dezesseis.
- Dezesseis?
- Claro! SEIS mais SEIS são doze...
- Eia! Somei oito mais quatro. (risos)
- Sua burra! Onde já se viu? Claro que seis mais oito é igual a dezesseis!
- Na verdade... (mais risos) É igual a catorze.
- Catorze?
- É, sua burra! Se seis mais seis são doze, OITO mais OITO são dezesseis, então seis mais oito é igual a catorze!
- Não acredito! Tanta coisa difícil pra errar e tu errou justo no mais fácil: a soma!
- Só eu não! Quem foi que disse que o certo era dezesseis?
- Uma burra falando da outra! (e mais risos)
terça-feira, 15 de setembro de 2009
Monstrinho
- Pega.
Eu deveria ter uns quatro anos de idade, mas me lembro perfeitamente daquele dia. Era verão e fazia muito calor. Eu era louca por aquelas gomas de mascar que vinham numa caixinha transparente. Elas eram tão coloridas! Pareciam ovos de dinossauros, mas numa proporção muito menor. Morávamos ao lado da panificadora e assim, logo que minha mãe me deu as moedas, fui saltitando buscar meu tão desejado bem de consumo.
- Eu quero um desse!
Disse, apontando com o dedo indicador pelo vidro, enquanto meus olhos brilhavam. Estendi minha mão e a moça que me atendeu colocou a caixinha ali, pegando o dinheiro com a outra mão. Ela só conferiu. Não havia necessidade de troco. As moedinhas já estavam contadas e certas.
Voltei para casa correndo, tomando cuidado para não derrubar aquelas delicinhas. Sentei no chão da sala e abri a embalagem.
- Mããããe! Qué um?
- Agora não amor.
Dei de ombros e comecei a me deliciar. Primeiro coloquei na boca o vermelho. Mastiguei umas duas vezes e depois acrescentei o amarelo. Mastiguei mais algumas vezes e também coloquei o azul na boca. E assim continuei até que as doze bolas de mascar faziam um montante em minha boca, formando bolas enormes quando eu as enchia de ar. Era tão divertido fazer aquilo! Poderia muito bem gastar uma tarde inteira daquele jeito. Minha mãe, que tinha acabado seus afazeres, voltou à sala.
- Filha, me dá um chiclete?
Olhei assustada para a caixinha vazia.
- Cabô.
- Tu comeu tudo de uma vez?
- Uhum. Qué que eu compre otra caxinha?
- Não, deixa.
E ela foi fazer alguma coisa na cozinha. Eu nunca tinha me dado conta de quão egoísta era. Sabia que antes ela tinha dito que não queria. Na verdade, ela disse que naquela hora não queria. Pensamentos como: ‘Tadinha da minha mãe’; ‘Ela vai fica com vontade”; “Eu devia tê guardado um pra ela”; fluíram em minha mente. Como eu podia ser tão individualista daquele jeito? Eu realmente era, embora ainda pequena, um monstro!
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Partida
Viu meu olhar vidrado, meu rosto molhado pelas lágrimas do silêncio e seguiu em minha direção. Não deixei que secasse meus olhos, nem que me acariciasse. Suas palavras passaram imperceptíveis por meus ouvidos. Quando me puxou para um abraço eu não retribui. A mágoa aflorava em minha pele. Dei um passo para trás e então minha mensagem fora entendida. Vi seus braços se encolherem, seus olhos me lançarem um olhar de tristeza. Já era tarde demais para desculpas e só haveria um jeito de mudar toda essa situação, a qual eu tinha certeza que não aconteceria. Não hoje. Abriu a porta e voltou-se então para as malas. Meus olhos protestaram, aumentando o volume e acelerando o precipitar, fazendo deles jorrar rios de lágrimas. Eu estava mais do que ciente de que era uma partida completa, não só com abandono, mas com direito a perfurar meu coração e machucar minha alma. Todavia, meu corpo ainda permanecia estático. Era algo incontornável e eu não era a única a saber disso. Sabíamos que no momento em que a porta se fechasse, deixando-me sozinha, a mágoa empedraria o que restava de meu coração. Se a partida era insuportável, um futuro retorno o seria mais ainda. Seria em vão pensar que eu ficaria aqui ansiando por sua volta. Não é fácil perdoar. Nem um pouco fácil. E nós sabíamos disso. Mas mesmo assim, vi as malas serem arrastadas para fora e a porta se fechar diante meus olhos.
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
"Ah... Não acredito!"
Uma buzina soou em frente ao portão de minha casa. Minha mãe estava sentada no sofá – sem fazer nada – e me mandou atender a porta... É inacreditável! Até parece que eu estava desocupada mesmo. Mas mãe é mãe, então é melhor não discutir. Deixei minha pilha de roupa suja, a qual estava separando para lavar, e fui, arrastando o chinelo, descobrir quem era a criatura impaciente que estava buzinando no meu portão. Abri a porta e então me surpreendi. Posso não entender muito de carro, mas com certeza aquele que estava ali parado não era qualquer um. Aquele eu reconheceria a quilômetros de distância: um renault laguna coupé, lindo, grafite e reluzente parado em meu portão. “Quem pode ser?” Vasculhei minha mente em busca de algum conhecido que o tivesse comprado, mas nada. Pra ser sincera eu nem sabia que já havia um carro deste rodando pelas estradas brasileiras. Segui até o portão e as escuras películas me impediram de descobrir quem estava ali dentro. Abri o portão, me aproximei daquela belezura e quando me inclinei para a janela, vi a porta se abrir.
- “Entre.” Exitei. Me abaixei para ver quem era.
- “Entre.”
- “Não, obrigada”. Havia um rapaz moreno, de olhos castanhos claro, cabelo ‘amontoadinho’ estilo moicano – que eu adoro – sentado no banco do motorista, sorrindo pra mim. Lindo. Eu, porém, não o conhecia.
- “Quer falar com quem?”
- “Com você. Entre, por favor.”
- “Comigo? Por quê? Eu nem te conheço.”
- “Porque este carro é seu e eu precisava lhe entregar. Prazer, sou Júlio.” Comecei a rir.
- “Perdão, mas qual é a graça?”
- “Esse carro... Meu? Tá bom! Vai, me diz... Onde tá a câmera?”
- “Que câmera?” Ele me olhava assustado enquanto eu ria. Mas era estranho, ele parecia não entender.
- “Que estória é essa desse caro ser meu? Eu não comprei nada.”
- “Alguém resolveu te presentear.”
- “Quem?”
- “Não sei. Fui contratado para entregá-lo e para levá-la a onde quiser.”
- “Tá. Já pode parar com a brincadeira. O que você quer?”
- “Acabo de lhe dizer. Saiba que nada do que lhe disse é mentira. Anda, vamos dar uma volta. Não quer experimentar o carro novo?”
- “Não mesmo. Isso não é meu.” Dei as costas e voltei em direção a minha casa.
- “Laura, Laura... Espera!” Não faço idéia como aconteceu, mas ao dizer a última palavra ele já segurava meu braço, o que me fez parar.
- “Me solta!” – girei meus calcanhares e o encarei – “Eu não te conheço e não sei que tipo de brincadeira é essa. Vá embora!”
- “Não. Você já sabe meu nome e eu já lhe disse pra que vim. Se não quer acreditar, tudo bem, mas aqui estão as chaves e o documento do carro.”
Era impossível, lógico, mas ele pôs em minhas mãos ambos. Fiquei pasma. Olhei o documento e constatei que ele não mentia: meu nome preenchia o campo designado para o proprietário do veículo.
- “Eu não disse? Anda, pára de se fazer de difícil e vamos dar uma volta!”
- “Não tô me fazendo de difícil. E também, nem estou pronta pra sair.”
- “Tem certeza?”
O desdenho estampado em seu rosto me fez olhar para mim mesma. “Que diabos está acontecendo?” Eu tinha certeza que estava usando uma regata rosa, um shorts jeans, um par de meias brancas e chinelo. Naquele momento, porém, um lindo vestido acetinado branco com um cinto dourado estava em meu corpo e uma sandália divina calçava meus pés.
- “Mas quando foi que...” Ergui a cabeça e vi que Júlio não estava mais ali. Encontrava-se sentado dentro do carro, do mesmo modo em que o havia encontrado cinco minutos atrás.
- “Vamos!”
- “Espera! Eu preciso pegar minha bolsa.”
- “Qual? Essa?” Ele ergueu uma dourada bolsinha de mão. Então conclui que minha cara de espanto é muito hilária, pois ele começou a rir imediatamente e eu, a duvidar da minha sanidade mental.
Segui em direção ao carro e ao entrar me vi no reflexo do vidro. Congelei. “Ah... Não acredito!”. Meu cabelo nunca estivera tão liso e meu rosto, nunca tão bem maquiado.
- “Tudo bem?” Ouvi Júlio perguntar. Precipitei-me pela porta, tomando meu assento, perplexa, e então sacudi a cabeça negativamente.
- “Você está linda!”
- “O-brigada” – Olhei para ele – “Como foi que isso...”
- “Não faço a mínina idéia.” Seu largo sorriso me fez duvidar de sua resposta, mas não insisti.
- “Bem, pra onde vamos?” Perguntei.
- “Dar uma voltinha.”
- “Posso dirigir?”
- “Não. Sem habilitação, nada feito.”
- “Não pode dar um jeitinho nisso?”
- “Nem pensar. Vamos, me dê a chave e feche a porta, por gentileza.” Pousei a chave em sua mão, fechei a porta, pus o cinto de segurança e então ele deu a partida. Permanecemos em silêncio, apenas ouvindo a música do rádio. A maior parte do tempo, Júlio preencheu me lançando olhares curiosos pintados com divertimento e, tenho certeza que, fazia um grande esforço para não rir; enquanto eu tentava entender toda aquela loucura. Pelo vidro pude ver as luzes passarem como riscos por nós. O ambiente me parecia familiar, mas definitivamente não eram da cidade onde moro. A velocidade reduziu gradativamente até parar. Estávamos em frente a uma boate onde havia uma multidão. No momento em que Júlio abriu a porta e eu me precipitei por ela para sair, milhares de flashes me cegaram e tudo o que pude ver foi a situação andar em câmera lenta: pessoas gritavam e eu permanecia sem entender.
- “Onde estamos?” Perguntei.
- “Em Las Vegas.”
“Não é possível!” Fui empurrada para dentro da boate e quando me deparei com aquela imensidão de cores e luzes, comecei a rir, incrédula. Antes mesmo que eu pudesse falar Júlio já dizia ao pé do meu ouvido:
- “Sem mais perguntas. Que tal se divertir agora?”
Afinal, que mais eu poderia fazer? Não havia saída e eu realmente não queria encontrar uma. Então concordei. Ele me tomou pela mão, me levou a um camarote e então dançamos a noite inteira. Foi maravilhoso estar bem acompanhada, rodeada de pessoas bonitas e não gastar um tostão.
Quando dei por mim já estava em casa tirando os calçados; o carro na garagem e o Júlio... Bem, não me lembro onde foi parar. Fui até a cozinha tomar um pouco de água e avistei um jornal sob a mesa. A imagem ali estampada me chamou a atenção: era uma foto a direita de uma matéria, retratando a frente de um carro, focando a placa do mesmo, com um belo par de pernas sob um salto, mais ao canto. A manchete dizia: “Quem será a dona?” Alguém deveria ter planejado aquilo muito bem e eu estava adorando. Primeiro o carro acompanhado de um cara lindo – ou vice e versa – depois a produção digna de uma rainha, em seguida uma noite fantástica e agora o melhor ângulo de minhas pernas estampadas na primeira página de um jornal. Que lou-cu-ra!
Ouvi um barulho distante e fui ver o que era, mas então tudo escureceu. Quando consegui enxergar novamente tudo o que vi foi o teto do meu quarto. Forcei meus olhos a se fecharem, apertando-os com toda a força. Rolei de lado, puxei o travesseiro por sobre minha cabeça e fiquei na esperança de não acordar. “Estou apenas sonhando que estou acordando” Claro, só podia ser isso. Ou não. “Volta sonho, volta. Não acordei não, ainda estou dormindo... Vamos continuar... Onde é que nós estávamos?” Gastei alguns minutos assim, tentando induzir meu cérebro a continuar aquela divertida projeção. Fora em vão, pois aquela doce realidade se desfizera com o raiar do dia.
terça-feira, 28 de julho de 2009
Retratos e nostalgia
Os fortes ventos de beira mar trazem consigo saudades que há tanto escondemos no mais profundo de nosso interior. É como olhar fotografias: ver momentos marcantes, datas especiais, quão pequenos éramos, e depois encher os olhos de lágrimas por saber que são tempos que não voltarão mais. Chega até ser maldade querer registrar momentos e deixá-los eternamente congelados num retrato, para futuramente sorrir um riso de saudade ao apreciá-lo.
Que dó olhar a vasta faixa de areia e encontrá-la vazia. É algo tão triste e, simultaneamente, tão belo. Recordar o calor dos raios solares, da multidão, da música, dos risos, da variedade de guarda-sóis multicoloridos... E agora, porém, apenas sentir a forte maresia que a invade.
Se me fosse possível, registraria a aparência de minh’alma no exato momento de recordar. Não em fotografias, mas em retratos que não congelassem e que exalassem toda aquela boa energia ao serem vistos. Para que, assim, pudesse perceber que apesar do passar dos anos ainda existem coisas muito belas para serem vistas e outras, mais belas ainda, para serem sentidas.
quinta-feira, 23 de julho de 2009
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Chuva que vem e vai
Chuva amiga se apresse! O dia já vai findar. Pela janela posso ver o crepúsculo e um fraco raio de sol, exausto, ainda lutando contra ti. Pobrezinho, já não tem mais força; pobre de mim, que não suporto mais a espera.
Vá, vá! Já podes ir chuva querida. Sua tarefa está cumprida. Ande logo, deixe a lua brilhar. Deixe-a trazer a quem tanto quero cuja mágoa lavasse de meu coração. E se puder, avise as estrelas para o guiarem e o trazerem depressa. Pois, agora, quem me consome é a ansiedade até o momento em que poderei tocá-lo novamente.
terça-feira, 14 de julho de 2009
Devaneios
Existe algo que cresce em meu interior. Um monstro. Aliás, monstro não. Um bicho. Um bicho indecifrável, que por vezes permanece adormecido e quase desaparece quando os sonhos se esvaem e a crença é pequena demais. Basta uma possibilidade surgir para ouvi-lo bocejar confirmando sua existência. Por vezes, apenas vira-se de lado e continua a dormir, em outras, porém, desperta lentamente e vai gerando inúmeros sentimentos. Plantando vida e fazendo os olhos arderem de confiança. Esse amigo-inimigo não me assusta, mas causa um medo despreocupado que sugere, a mim, enlouquecer. Ora, que medo tolo! Desde que se esteja feliz de que importa a loucura?
Ah, vontades que satisfazem meu ego. Ah, bicho malvado que me vicia, me leva ao êxtase supremo e me devora. Não quero o negativo, muito menos pesadelo. Quero ser insana. Quero sonho, quero alcançar. Quero me superar. Mesmo que a sociedade seja contra, afinal, não pode haver equivoco quando todos me levam para a direção que não quero ir, dizendo seguir para um bom caminho? E se estiverem voltando, sem saber, e me privando de ir?
Ó céus, será possível nadar tanto e morrer na praia?
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Irrevogável
Seus cabelos voaram e atingiram meu rosto, no momento em que decidida, e furiosa, saiu da fila e foi, imagino eu, para casa. O ambiente ficou tenso. As pessoas pararam de falar e começaram a olhar ansiosas para mim. Eu, de imediato, corei. Sempre fui muito tímido. Ainda sou. Mas ela sempre acaba me expondo, parece que faz questão de chamar atenção. Quando não no modo de se vestir, o faz nas atitudes. Como hoje. Não lembro bem o que vestia, mas, estava linda, era algo discreto combinado a um salto-alto. Sempre sai de salto. A desculpa é sempre a mesma: “Eu preciso diminuir nossa diferença de tamanho.” De fato ela não é muito alta. Mesmo de salto, ainda é uma cabeça menor que eu. Mas se não fosse esse bendito salto, ela não teria se irritado.
O ambiente ainda continua pesado. As pessoas me encaram como se eu tivesse a obrigação de sair da fila e ir atrás dela. Não mesmo! Há meses estou esperando a estréia deste filme e ela sabe muito bem disso, assim como estava ciente que ficaríamos horas na fila para poder adquirir o ingresso. Quando falei do salto, ela veio com a desculpa de sempre, mas depois de ficar uma hora e meia de pé, esperando, começou a reclamar. Eu bem tinha avisado, ela que não quis ouvir. Quando lhe falei isso, instantaneamente começou a se alterar e em vão, tentar me convencer de desistir. “Nem pensar! Nem que eu pegue só a última sessão.” E pronto. Simplesmente se foi. Eu nunca protesto, evito discutir e sempre faço suas vontades. Mas dessa vez, não.
As pessoas cochicham, e ainda me lançam olhares de repreensão. A fila caminha lenta. Creio que falta menos de meia hora para eu chegar ao caixa. No fim das contas tudo vai dar certo: vou assistir ao filme mais esperado de todos os tempos. E quanto a minha namorada... Nada que umas belas flores não resolvam.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Alimentador do medo, domador dos sentidos
Estou virando à direita. Como imaginei, a rua está vazia, mal iluminada pelas luzes dos postes e sombria por tamanha escuridão enfatizada pelas árvores. Inspiro profundamente e sigo. Um crescente temor sobe por meu corpo. “O que há demais em uma rua deserta?” Em vão, porém, fico repetindo isso para mim mesma como forma de estimular confiança.
“Faltam apenas duas quadras.” Fico mais aliviada, como agora, enquanto estou sendo iluminada pela luz do poste... Estava. A luz piscou e se apagou. A acluofobia me invade. Sinto um tremor que não é de frio. Apresso o passo em direção ao outro foco de luz que não está tão próximo, pois as seguintes lâmpadas estão queimadas também. Algo me pressiona e dificulta a respiração. Pânico. Por mais rápido que eu caminhe, a iluminação desejada não chega. Ouço o roncar de uma moto. O pânico aumenta. Seguro com mais força minha bolsa. Estou desesperada! E sufocando o desejo de gritar. O som se aproxima lentamente. Meus passos de estreitam, enfim chego à luz. Falta-me coragem para olhar para trás. Logo alcanço a outra quadra e o motoqueiro com todos os seus acessórios passa por mim. Abaixo a cabeça. Ele segue, mas não sei se me olha.
“Só essa quadra!” Pulsações frenéticas, tremor e medo. Muito medo. Ergo a cabeça e então paraliso: o motoqueiro está parado em frente ao portão de meu prédio. Continuo a caminhar e me surpreendo com o barulho das folhas das árvores, produzido pelo vento. “Ele não vai fazer nada. Se fizer, grito. Corro. Esperneio. Espanco-o.”
“Menos de três metros.” Inspira, expira. Inspira, expira...
Estou passando por ele. “Nada vai acontecer. Nada vai acontecer. Nada vai acontecer!” Sinto ele me encarar. Não há ninguém na portaria do prédio. “Nada vai acontecer. Nada vai acontecer. Pronto, já passei por ele. O perigo acabou!”
- Ei...
Sinto cada parte de meu corpo enrijecer de pavor. O medo faz doer. “Não pare, não pare...”
- Ei , moça.
A voz está mais próxima. “Continue andando, continue andando.”
- Por favor.
A voz está extremamente próxima. Paro. Inspiro. Giro meus calcanhares e fico de frente para ele.
- Sim?
Ele está sem capacete. Tem olhos negros, barba, cabelo curto. É alto, traja uma roupa preta. Traz um papel numa das mãos e a outra conserva no bolso.
- Este é o número 182?
- É... É sim.
- A senhora Márcia mora aqui?
- Márcia? Mo...
- Moro sim. É da farmácia?
Uma voz as minhas costas me sobre-salta. Minha vizinha pôs-se atrás de mim, coberta com espessos casacos e com uma péssima aparência.
- Sim. Aqui estão seus remédios, senhora. São R$25,00.
- Coff coff... Muito obrigada. Oi Carla, como está?
Perplexa, sentindo o medo se esvair, trazendo uma estranha sensação de alívio, e incrédula por deixar meu psicológico gerar tamanho pânico; por ser alimentada por minha mente; por exagerar na preocupação; por deixar uma fobia crescer e me domar.
- Carla?
Não, evidentemente, a Márcia não precisa saber disso.
sexta-feira, 26 de junho de 2009
(Des)enfado
Mais um dia de chuva. Nada para se espantar morando na terceira cidade que mais chove no mundo. Não que eu não goste da chuva. Gosto, claro. Ela é necessária, afinal. Só não me sinto muito bem e não gosto de ver como os dias são chatos quando há sua presença. Certamente eu mesma o taxo assim e não faço nada para que essa situação seja diferente. Pode parecer futilidade, mas não gosto de toda essa umidade em contato com meu cabelo, fico realmente irritada com isso. Olhar-me no espelho então, nem pensar.
Apesar de tudo há algo que sempre acontece nesses dias.
-“Sai da chuva cachorra burra!”
Quem foi que disse que adianta gritar? Ela sempre fica deitada debaixo da chuva, mordendo seu paninho, que há essa hora deve estar encharcado e impossibilitado de ser um cobertor à noite. Ao ouvir minha voz ela simplesmente fica radiante e vem a toda velocidade pulando, molhada, se jogar em cima de mim.
-“Nããããão! Sai daqui. Saaaaaaai!”
Já estou correndo tentando escapar de suas patas sujas e molhadas. Enquanto enlouqueço, ela se diverte. Corre atrás de mim, passa por entre minhas pernas, toma a frente, pula feito um canguru e em meio a meus gritos e insultos ela avança com todo o seu peso, sem nem ligar se vai ou não se machucar, então se choca contra mim e busco a todo o custo não perder o equilíbrio. Pronto! Já estou suja, molhada, descabelada, com uma cadela apoiando suas patas em minhas pernas e esticando o foscinho como um pedido de carinho.
-“Sua retardada!”
Só me resta rir e afagar essa criatura doce que veio me tirar da monotonia.
terça-feira, 16 de junho de 2009
Quase tarde demais
Eu o corrigi:
- Não me chame assim... Diga “meu amor”.
Ele fixou seus olhos nos meus, então pude ver sua tristeza. A luz cintilando em sua íris cor de mel. Estava imóvel, sentado a minha frente, com uma expressão vazia. Não consegui descobrir o que se passava em sua mente, mas toda a sua hostilidade me causou uma má sensação, algo parecido a uma despedida. Ele colocou a mão em meu rosto e começou a afagar minha bochecha.
- Você vai aprender a me odiar.
- Que história é essa?
O pânico tomou conta de minha voz.
- Shhhhh. Acalme-se.
Disse ele pacientemente. Respirei fundo e me mantive num piscar de olhos demorado.
- Você se tornou a minha vida.
- Mas você aprenderá a viver sem mim.
- Eu NÃO QUERO viver sem você.
- Você precisa. Tem que se salvar. Não sou o cara certo, não mereço o seu amor, você precisa entender. Não posso deixar que isto siga adiante, já é quase tarde demais. Eu preciso... Você precisa fazer isso antes que nada mais possa ser feito.
Senti o tremor subir por meu corpo. Minha pulsação acelerou a ponto de eu perder o ar. Não entendi o motivo de tudo aquilo. Estava confusa. Por que ele estava me deixando? Por que EU o odiaria? Como eu poderia odiar a pessoa que faz meu coração bater? Foi quase inevitável segurar o choro. Mas resisti. Não quis demonstrar fraqueza e, feito uma criança, começar a chorar. Perdi-me em meus devaneios e deixei vazio meu olhar. Fiquei vagando por nossos momentos juntos. Tudo parecia tão irreal agora. Voltei ao pub e ele não estava a minha frente, de súbito entrei em desespero, então me virei e vi que ele tinha se posto a meu lado. Suspirei aliviada e desviei-me de seu olhar. Por um instante podia jurar que ele colocaria a mão em meu ombro, mas então com uma das mãos ele segurou minha mão e com a outra começou a acariciar meus dedos. Olhei para sua face enquanto ele estava atento a minha mão. Sem eu perceber uma lágrima deslizou por meu rosto e caiu sob a mesa. Ele me encarou. Seu belo rosto se enrijeceu e de relance vi uma certa covardia: havia algo que ele temia em enfrentar.
- Eu te amo!
Sibilei. Imediatamente ele pressionou um dedo em meus lábios e me fez silenciar. A censura estava em sua expressão.
- Não... Por favor, por mim, seja forte. Agüente firme. Você precisa me esquecer.
Num impulso desvencilhei-me de suas mãos e agarrei seu pescoço. Abracei-o com toda a força. Tinha a esperança de que ficássemos assim, unidos, para sempre.
- Oh, por favor, eu estou apaixonada - Falei ao pé de seu ouvido. Com menos força e o choro atrapalhando a fala, repeti - Eu te amo.
Cuidadosamente ele desfez meu abraço, segurou meu rosto em suas mãos a uma curta distância que eu pude sentir sua respiração tocar minha pele e esperou até que eu o olhasse.
- Você estará melhor sem mim, eu garanto. Sem mim você terá tudo!
E antes que eu pudesse protestar, senti seus lábios nos meus num movimento suave e intenso. De imediato retribui seu beijo, querendo eternizar aquele momento, que a meu parecer foi rápido demais. Gentilmente ele se afastou, ainda segurando meu rosto e eu permaneci de olhos fechados querendo apenas sentir o amor em minhas veias.
- Sem mim você tem tudo, então... agüente... firme.
Num rápido movimento ele soltou meu rosto e quando abri meus olhos eu estava só. Ele já não estava dentro do meu campo de visão e, eu tinha certeza que agora, eu não fazia mais parte da vida dele.
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Banalidade
- Não.
Uma resposta rude para alguém que estivesse realmente interessado. O que não ocorreu. Ninguém no grupo de seis pessoas notou a resposta de Laura. Talvez por seu jeito de tê-lo dito, mas certamente porque não prestavam atenção. Utilizaram esta pergunta em forma de cumprimento, tão banal quanto um “bom-dia”.
De fato ela não estava mal. Tampouco bem. Sentia-se entediada e um tanto cansada por causa das várias horas de trabalho. Assim resolveu sair, ir ao cinema e se divertir um pouco. Encontrar os colegas de sala não fora muito bom, embora tenham sido educados – após ignorarem sua resposta de como estava – em convidá-la a se juntar a eles para irem comer e bebericar alguma coisa. A idéia de aceitar o convite nem se quer passou pela cabeça de Laura. Sabia que facilmente ficaria irritada.
- Desculpe, mas não posso. A sessão já vai começar, é melhor garantir meu lugar. Quem sabe da próxima vez?!
Não era mentira, faltava pouco menos de meia hora para o filme começar. Ela simplesmente fez disso um pretexto para ver-se longe dali. E foi fácil, pois ninguém insistiu. Seguiu então calmamente para o cinema. Deu uma olhada nos outros filmes que estavam em cartaz, depois comprou um pacote grande de pipoca doce, uma garrafinha de água e entrou na sala. Sentou-se na quinta fileira central, na oitava poltrona. Os dois lugares ao seu lado estavam vagos, assim como as mesmas poltronas na fileira acima. Desligou o celular e aguardou, silenciosamente, o filme começar.
quarta-feira, 3 de junho de 2009
Tentação
Aliás, belas não, provocantes. Ainda mais para nós, mulheres.
Sejam de lojas de roupas, com aqueles manequins maravilhosos vestindo a última tendência da moda; sejam de lojas de calçados, com aquela imensidão de modelos expostos; ou de bolsas de todos os tipos e tamanhos; ou de cosméticos, ou de joalherias, ou de perfumarias...
Bookstores também são problema. Não necessariamente para mulheres, mas para os apaixonados por leitura. É impossível passar por uma vitrine dessas e não parar. Sempre acabo entrando. Fico fascinada por tamanha beleza. São inúmeros temas, autores, variações de páginas, de tamanho... Uma loucura. Embarcar naquelas histórias envolventes e emocionantes me faz delirar. Triste é ter que sair sem comprar nada, devido ao orçamento estar estourado. Mas sempre fica aquele gostinho de quero mais, principalmente quando me indicam, dizendo ser um bom livro. Não resisto, fico enamorada!
segunda-feira, 1 de junho de 2009
A good way
Bella também é diferente. Possui uma diferença, comum entre algumas pessoas, que não é notada a primeira vista: ela é completamente atrapalhada. Vive a tropeçar, cair, derrubar coisas, bater involuntariamente nas pessoas... É engraçada.
Quisera eu ter a mesma coragem, a mesma confiança, a mesma sorte. Todavia, concordo plenamente com o que Bella falou: “I’d never given much thought to how I would die. But dying in the place of someone I love seems like a good way to go”.
quinta-feira, 28 de maio de 2009
Tenho medo
Quando em meu emprego chegar, deparar-me com estresse, reclamações, mau-humor e junto deles ter de passar o dia; lidar com arrogância; fornecer produtos e embalá-los com tristeza, por toda a destruição ambiental gerada para produzi-los. Quando o dia findar, voltar para casa e quase em minha frente ver um acidente acontecer, e ouvir os envolvidos discutirem sobre erros e quem pagará os prejuízos. Não ouvir pássaros cantando, não sentir alegria, não saborear o silêncio. Chegar então em meu lar, tomar um banho com a esperança de que ele purifique minha alma. Sentar-me no sofá, ver a hipocrisia explicita na televisão e então adormecer.
Tenho medo de sentir esse medo, e mais do que tudo, medo disso já acontecer. Temo ser alguém imparcial, não fazer o suficiente, enxergar tudo e não agir. Temo pela falta de amor, mas principalmente, pela vida. Não a minha. Pelas vidas que chegarão a este mundo e o encontrarão, lamentavelmente, destruído.
terça-feira, 26 de maio de 2009
Criaturinhas do adormecer
Com suas carinhas sorridentes, chamam minha atenção e quando dou por mim já são dezenas a meu redor, alguns em meus ombros, outros sob minha cabeça, e outros pendurados em minha roupa. Basta me sacudir um pouco para todos caírem, mas em seguida repetem a ação com mais voracidade e assim vão me enlouquecendo, causando-me alucinações. Vejo uma espécie de ‘pozinho’ brilhante que gera em mim certa moleza, uma preguiça, lerdeza, sonolência...
Ouço um barulho familiar. Abro meus olhos e me dou conta de que estou deitada em minha cama, que já são 7h da manhã e que o barulho que ouço é de meu despertador confirmando o nascer de um novo dia. Não me pergunte como fui parar ali, pois sinceramente não sei. Para ser franca, ainda não descobri uma maneira de me defender desses benditos gnomos, sempre acabo me rendendo a eles.
segunda-feira, 18 de maio de 2009
Prazer, sou Flor.
É lamentável verem apenas seu exterior. Os únicos que realmente a conheciam eram seus amigos e sua mãe, os quais deixara em sua cidade natal quando decidira ir em busca de uma boa formação profissional. Somente eles sabiam que Flor era apaixonada por livros, que apreciava música clássica, que sabia tocar flauta, violino e bateria, e que colecionava bibelôs. Sabiam quão determinada, inteligente, prestativa, vaidosa, divertida e autocrítica era e foi por ter seu senso crítico um tanto aguçado que ela manteve sua aparência.
Quando então se cansou, resolveu chamar a atenção – não que não o fizesse todas as vezes que adentrasse algum ambiente, mas iria fazê-lo de outra maneira. Expôs nos corredores da faculdade réplicas em preto e branco da foto de uma pessoa desconhecida com uma expressão de seriedade e junto a elas a repetição da frase “DIFERENÇA É UMA VIRTUDE”. Quem muito minuciosamente observasse notaria que a disposição, das imagens e das frases, compunha a palavra ‘indiferença’. Como era de se esperar, vários comentários surgiram e foi no auge deles que Flor subiu em uma mesa, soltou sua bolsa e começou a falar:
- Indiferença, hipocrisia e vãos julgamentos. É disso que se constitui a sociedade em que vivemos. Não são as vaias que vão me fazer parar, nem os risos que vão me intimidar, muito menos esses comentários mesquinhos sobre quem vocês acham que sou. Por que é que tenho cabelo azul? Por que não tenho os mesmo gostos que vocês? Por não sigo os padrões da moda? Por que me exponho? Ora, por puro prazer. Gosto de ser assim! Afinal, quem foi que disse o que é certo e o que não é? O que é bonito e o que não é?
Uma multidão estava parada, perplexa com tudo aquilo e sem o mínino de entendimento. Então, Flor deu uma gargalhada que ecoou pelo campus.
- Pobres mentes vazias que se deixam levar pelos outros... Tudo é relativo!
Ela ajuntou sua bolsa e antes de sair, saudou:
- Prazer, sou Flor.
Desceu da mesa e foi embora cantarolando algo que ninguém conseguiu entender, enquanto o silêncio reinava naquele lugar.
sexta-feira, 15 de maio de 2009

terça-feira, 12 de maio de 2009
Um Alguém
Acabara de anoitecer. A lua, majestosa, exibia-se rodeada de estrelas enquanto apreciando-a Laura aguardava a chegada de alguém. As pessoas estavam agitadas. Transmitiam inconfundível satisfação e o brilho no olhar confirmava o sentimento de alegria. Estavam ao som de “If you don’t wanna love me” do James Morrison, mas a maioria nem se quer apreciava o doce embalar daquela triste canção. Gargalhadas eram ouvidas. O ambiente estava praticamente cheio, não fossem duas ou três mesas, mais ao canto, desocupadas. O ambiente era um tanto rústico, construído quase que totalmente de madeira de lei, com umas luminárias penduradas no teto, uma decoração simples e aconchegante, sendo que todo aquele conjunto lembrava aquelas casas em meio às florestas que sempre se vê nos filmes. Laura aprecia muito aquele lugar, embora permanecesse sentada, sozinha, olhando a lua. Ali e ao mesmo tempo tão distante. Então, despercebidamente, ela voltou seu olhar para o ambiente em que se encontrava e ao mirar a porta de entrada sentiu-se como sendo puxada novamente para a realidade. Algo a trouxe de volta do lugar tão distante onde estivera há segundos atrás: um rosto, expressivamente feliz, com um brilho malicioso no olhar o qual se acentuava com o loiro de seu cabelo, o que o tornava extremamente belo: Lucas. Repentinamente uma felicidade incontrolável tomara conta de Laura, o que quase a fizera gritar e correr em direção a ele... Não! No momento em que iria se levantar e deixar-se dominar por aquele impulso, tudo mudou completamente. Aquele sentimento fora substituído por medo, vergonha, tristeza, orgulho e decepção: ele não estava sozinho, estava acompanhado, e, diga-se de passagem, mesmo com o ciúme corroendo-a por dentro, achava que ele estava muito bem acompanhado. Ela era morena, tinha seus cabelos lisos e longos; era magra, tinha aparentemente a mesma estatura que ele e parecia ser bastante simpática. Ambos seguiam em sua direção. Foi quando pode notar o belo casal que formavam.
Nunca tantos sentimentos haviam se manifestado simultaneamente. Era como um bombardeio. Uma guerra se formava em seu interior enquanto o mundo parecia ter parado. Passou, então, a ouvir o ponteiro do seu relógio de pulso: tic-tac tic-tac tic-tac tiraram-lhe o chão tic-tac tic-tac tic-tac tic-tac seu coração estava prestes a explodir tic-tac tic-tac tic-tac tic-tac tic-tac o desespero tomou conta tic-tac tic-tac tic-tac tic-tac tic-tac tic-tac buuum! Uma explosão sonora despertou-a. Os movimentos haviam voltado a seu ritmo normal. Laura sentiu-se desvanecer, mas deixou a esperança que lhe restava reanimá-la. Os vira passar por ela, mas estes nem se quer notaram sua presença, ou não quiseram notar. Chamou o garçom e pediu a conta, pois constatara que era em vão permanecer ali a espera de alguém... Uma pura ilusão. Deixou o lugar e seguiu caminhando pela calçada. No céu, a lua ainda estava a acompanhá-la, porém um tanto oculta devido às nuvens que agora começavam a derramar seus pingos de chuva... E assim, para casa voltaram: Laura, a lua, os pingos de chuva e um alguém chamado solidão.
terça-feira, 5 de maio de 2009
Percepção
- “Po-po-pode abrir pra mim?” a partir daí o mundo começou a girar mais devagar e o som de todos que ali estavam foi para outra dimensão. Um senhor que aparentava estar em seus setenta e poucos anos se aproximara de nossa mesa e acabara de pedir ajuda para abrir a embalagem de um daqueles espetinhos feitos com morango e cobertos com chocolate.
- “Claro.” Imediatamente uma expressão de alegria formou-se em seu rosto. Ele agradeceu e saiu. Então pude perceber que trajava uma calça, um moletom e um boné, tudo muito simples. Ele sentou-se numa mesa próxima a nossa, procurando se esconder. Virou-se de frente para uma parede, abriu sua lata de coca-cola e colocou-a sob a mesa, então descobriu apressado o plástico daquele doce e deliciou-se. Sua expressão era extremamente bela: era inocente, prazerosa, algo realmente encantador.
Suas rugas, seus cabelos grisalhos e suas manchas revelavam uma vida sofrida; o fato de estar ali, se escondendo, sozinho, me fez pensar que talvez a vida não tenha sido tão generosa com ele, que talvez não dispusesse de dinheiro e nem do amor de sua família; e o modo com que agia confirmava a realização de uma experiência completamente inovadora.
Rapidamente ele o devorou, intercalando uma mordida e vários goles de seu refrigerante. Foi tudo muito rápido e logo de minha vista ele sumiu. Os poucos instantes em que o observei, ouvindo ao longe as repreensões de minha irmã que dizia para eu parar de olhá-lo, pois não passava de apenas mais uma pessoa qualquer, ganhei meu dia imaginando como será minha velhice, e como terá sido a vida daquele homem. Na mais otimista das previsões ele era apenas mais um senhor, aposentado, que tinha saído de sua casa e ido em busca das coisas que mais gostava de saborear em sua simples vida.

