domingo, 13 de fevereiro de 2011

Primeiro olhar

Olhei atentamente a pessoa que se encontrava a minha frente. Impossível não notá-la! A diversidade de cores num só ser chegava a ser agressiva aos olhos. Era chamativo demais, carregado demais e irradiava dos dedos dos pés ao último fio de cabelo da cabeça. E que cabelo! Ele era o primeiro a prender a atenção dos observantes alheios, afinal, ninguém nasce com cabelo azul. Mas ele não era apenas azul, era berrante, escorrido até a cintura num corte reto e com franja. Fazia um grande contraste com a pele clara e acetinada da, digamos assim, sua proprietária. Para ser sincera, não havia nada que não entrasse em choque naquela criatura: trajava uma blusa amarela de mangas compridas extremamente justa ao corpo; uma saia verde de bolinhas alaranjadas até o joelho, levemente avolumada por uma armação de tule branca que poderia ser vista abaixo do joelho; um cinto fino cor de rosa no meio da cintura; uma meia calça xadrez vermelha e um salto alto violeta. Sem falar do enorme girassol preso no pescoço por uma fita branca de cetim. Era uma completa descombinação! Pobres sábios da moda enfartariam ao vê-la.

Continuei a avaliá-la minuciosamente. Foi quando, por fim, a encarei. Ela não sorria, mas tinha um ar de curiosidade nos olhos azuis. Seu rosto trazia maçãs avermelhadas, pálidas se comparadas a cor de seu batom. Os olhos eram contornados de preto, tanto na parte inferior quanto na parte superior, que também trazia o alaranjado em suas pálpebras. As sobrancelhas eram bem definidas e os cílios longos mais pareciam uma vassoura a varrer. Eu não sabia para onde olhar. Me senti um tanto incomodada com aquela situação. Mirei novamente o rosto da garota, encontrando desta vez espanto. Olhei em volta e vi que algumas pessoas também a olhavam e algumas até murmuravam entre si coisas inaudíveis, mas que eu tinha certeza de serem as mesmas que passaram por minha mente.

Voltei-me para a garota e a encontrei sorrindo. Não de felicidade, mas de satisfação. Uma certeza de dever cumprido. E realmente estava. Quem olhasse para ela ficaria sem entender. Os leigos logo a julgariam exibida, alguém que apenas buscava chamar a atenção; os mais, por assim dizer, inteligentes, encontrariam um conflito externo, que certamente refletia o interior. Estes, por sua vez, estariam parcialmente certos, já que o conflito de fato existia. Porém, não saberiam o porquê e assim sendo, não haveria mais chances de acertos. Estava livre. Livre de si, livre dos outros, livre do passado. Um caminho se abria a sua frente com muito menos dor.

Deixei as reflexões de lado, olhando minha imagem refletida no espelho. Aquela era eu: a nova Maria Flor da Cunha. Embora eu não me reconhecesse, ainda que estivesse com os mesmos traços de antes, teria de aprender a conviver com esse meu novo eu, não só exterior mais muito mais interior. Teria de suportar os olhares julgadores, as gozações, os apelidos... E calaria cada qual, levando assim minha meta em diante. Ainda era cedo, o dia estava só começando, então era chegada à hora de eu deixar aquele salão de beleza e ir para casa. Ir para minha nova vida.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

(In)sensato coração

Laura, 18 anos, alta, morena e divertida.

Era assim que eu sempre me descrevia nos chats. Não que tudo fosse verdade. A começar pelo meu nome. Eu me chamo Ana, sou morena, estatura mediana, não sou tão divertida assim e naquela época eu tinha 17 anos. Adorava gastar meu tempo conhecendo pessoas novas no mundo virtual, tudo aquilo me fascinava, afinal era uma típica adolescente. Mas o que realmente estava por trás era o sonho de toda garota: encontrar o homem perfeito. Até que um dia ele apareceu. Se identificou como o surfista solitário. Conversamos durante horas, e no dia seguinte também, e no seguinte, e no outro...

Era mês de agosto e o inverno daquele ano havia sido rigoroso. Muita chuva, muito frio... E assim eu e o tal surfista gastávamos nossos dias em longas conversas pela internet. Ele era divertido, inteligente, tínhamos a mesma idade e as mesmas idéias. A cada dia ele me encantava mais.

Setembro passou como um vento forte, desconcertando meu coração e levando para longe de mim a razão. Eu sabia que era tolice, mas eu já estava apaixonada por um cara que poderia muito bem não existir.

Outubro chegou e então começamos a ter conversas de vídeo. Nessa época ele já sabia que eu era Ana e eu já sabia que ele era Gabriel; já trocávamos e-mails diários, assim como torpedos e telefonemas. Ele era exatamente como eu sempre sonhei: romântico, inteligente, divertido e lindo. Sim, ele era lindo: moreno claro, olhos negros com um sorriso fascinante.
Em contra partida, eu já não tinha uma vida social. Meus amigos já nem me ligavam mais e minhas amigas já haviam se cansado de tanto ouvir falar desse meu amor platônico. Mas naquele tempo isso pouco me importava, tanto fazia o que todos falavam, eu já havia me rendido a paixão.

Quando chegou novembro, por medida de segurança, meus pais cortaram a internet e me proibiram de falar com Gabriel. Besteira! Eles achavam que era perigoso demais e temiam que algo ruim acontecesse. Era lógico que não! Jamais o Gabriel me faria mal. Ele me amava tanto quando eu o amava. Mesmo sem internet, continuamos nos falando. Quando ele não telefonava, eu o fazia. Escondida, claro! E assim meu amor crescia a cada dia mais...

E assim chegou dezembro. Verão, sol e mar. Meu pobre coração já não suportava mais a espera, então decidi ir para Garopaba encontrar o amor da minha vida. Como eu sabia que ele morava lá? Eu não sabia onde ele morava, mas sabia onde ele adorava pegar onda. Ele sempre me dizia que era o melhor lugar, pois era lindo e combinada a extensa faixa de areia com as fortes ondas do mar. Para não ser impedida não avisei ninguém que eu estava indo, nem mesmo o Gabriel, simplesmente fui. Era uma sexta-feira a tarde abafada em Joinville, coloquei algumas roupas na mochila junto com o pouco dinheiro que havia economizado e então fui à busca do meu amor. Porém, a viagem demorou mais do que o esperado. Devido a um acidente na estrada demorei o dobro do tempo para chegar e assim, como já era noite, resolvi dormir numa pousada e esperar o sábado chegar. Com o celular sem bateria e com o pouco dinheiro que me restou, assim que amanheceu fui para a praia, pois sabia exatamente onde encontrar o tão esperado homem dos meus sonhos e a ansiedade já me consumia.
Não foi difícil encontra-lo. Difícil foi suportar o que eu vi: ele, lindo e majestoso, saindo do mar e indo ao encontro de uma loira sentada na areia. Meu mundo desmoronou quando ele a beijou. Pobre coração tolo, ingênuo, que se deixou levar... Só me restava juntar os pedacinhos e voltar para minha vida vazia e, a partir de então, amargurada. Olhei uma última vez para aquele cretino, safado, sem vergonha, jurando para mim mesma jamais me deixar enganar novamente. Sai dali direto para a rodoviária, porém o destino não estava sendo generoso comigo e o próximo ônibus para Joinville só saia às 13h e ainda eram 10h. Enquanto aguardava, em meio ao choro, frustrada e desiludida, o que passava na televisão me chamou a atenção: um casal de meia idade, aflito, pedindo ajuda para encontrar a filha desaparecida. A mulher chorava enquanto se desculpava por pensar não ser uma boa mãe. Mas ela era. Era a melhor mãe do mundo! Ver meus pais desesperados por uma inconseqüência minha só estraçalhou meu coração ainda mais. Encontrei um orelhão e liguei para casa a cobrar. A única coisa que eu consegui dizer, aos prantos, foi: “Estou bem... Estou voltando”.



Hoje com 22 anos me lembro disto e dou boas gargalhadas. Assim que voltei para casa tive que ouvir, calada, muitos “Eu disse”, “Não falei?”, “Eu te avisei que isso não iria dar certo!”. Mas como eu poderia mandar em meu insensato coração? Como eu poderia controlar um sentimento tão nobre?
Logo após aquela insanidade fiquei bom tempo isolada do mundo, pensando na loucura que havia feito. Mas toda história ruim tem seu lado bom. Amadureci muito com tudo isto. Entrei para a faculdade e lá conheci Henrique, meu atual namorado. Ele não se encaixa nos padrões gerais de perfeição, mas eu não ligo, pois o amo mesmo assim. Ele é perfeito para mim. Não sei dizer se ele é o amor da minha vida, muito menos se isso vai durar para sempre. Mas tenho certeza que ele é o amor do meu ontem, do meu hoje e o que eu mais desejo é que tudo isso seja eterno enquanto dure.