- “Laura, vai ver quem é”.
Uma buzina soou em frente ao portão de minha casa. Minha mãe estava sentada no sofá – sem fazer nada – e me mandou atender a porta... É inacreditável! Até parece que eu estava desocupada mesmo. Mas mãe é mãe, então é melhor não discutir. Deixei minha pilha de roupa suja, a qual estava separando para lavar, e fui, arrastando o chinelo, descobrir quem era a criatura impaciente que estava buzinando no meu portão. Abri a porta e então me surpreendi. Posso não entender muito de carro, mas com certeza aquele que estava ali parado não era qualquer um. Aquele eu reconheceria a quilômetros de distância: um renault laguna coupé, lindo, grafite e reluzente parado em meu portão. “Quem pode ser?” Vasculhei minha mente em busca de algum conhecido que o tivesse comprado, mas nada. Pra ser sincera eu nem sabia que já havia um carro deste rodando pelas estradas brasileiras. Segui até o portão e as escuras películas me impediram de descobrir quem estava ali dentro. Abri o portão, me aproximei daquela belezura e quando me inclinei para a janela, vi a porta se abrir.
- “Entre.” Exitei. Me abaixei para ver quem era.
- “Entre.”
- “Não, obrigada”. Havia um rapaz moreno, de olhos castanhos claro, cabelo ‘amontoadinho’ estilo moicano – que eu adoro – sentado no banco do motorista, sorrindo pra mim. Lindo. Eu, porém, não o conhecia.
- “Quer falar com quem?”
- “Com você. Entre, por favor.”
- “Comigo? Por quê? Eu nem te conheço.”
- “Porque este carro é seu e eu precisava lhe entregar. Prazer, sou Júlio.” Comecei a rir.
- “Perdão, mas qual é a graça?”
- “Esse carro... Meu? Tá bom! Vai, me diz... Onde tá a câmera?”
- “Que câmera?” Ele me olhava assustado enquanto eu ria. Mas era estranho, ele parecia não entender.
- “Que estória é essa desse caro ser meu? Eu não comprei nada.”
- “Alguém resolveu te presentear.”
- “Quem?”
- “Não sei. Fui contratado para entregá-lo e para levá-la a onde quiser.”
- “Tá. Já pode parar com a brincadeira. O que você quer?”
- “Acabo de lhe dizer. Saiba que nada do que lhe disse é mentira. Anda, vamos dar uma volta. Não quer experimentar o carro novo?”
- “Não mesmo. Isso não é meu.” Dei as costas e voltei em direção a minha casa.
- “Laura, Laura... Espera!” Não faço idéia como aconteceu, mas ao dizer a última palavra ele já segurava meu braço, o que me fez parar.
- “Me solta!” – girei meus calcanhares e o encarei – “Eu não te conheço e não sei que tipo de brincadeira é essa. Vá embora!”
- “Não. Você já sabe meu nome e eu já lhe disse pra que vim. Se não quer acreditar, tudo bem, mas aqui estão as chaves e o documento do carro.”
Era impossível, lógico, mas ele pôs em minhas mãos ambos. Fiquei pasma. Olhei o documento e constatei que ele não mentia: meu nome preenchia o campo designado para o proprietário do veículo.
- “Eu não disse? Anda, pára de se fazer de difícil e vamos dar uma volta!”
- “Não tô me fazendo de difícil. E também, nem estou pronta pra sair.”
- “Tem certeza?”
O desdenho estampado em seu rosto me fez olhar para mim mesma. “Que diabos está acontecendo?” Eu tinha certeza que estava usando uma regata rosa, um shorts jeans, um par de meias brancas e chinelo. Naquele momento, porém, um lindo vestido acetinado branco com um cinto dourado estava em meu corpo e uma sandália divina calçava meus pés.
- “Mas quando foi que...” Ergui a cabeça e vi que Júlio não estava mais ali. Encontrava-se sentado dentro do carro, do mesmo modo em que o havia encontrado cinco minutos atrás.
- “Vamos!”
- “Espera! Eu preciso pegar minha bolsa.”
- “Qual? Essa?” Ele ergueu uma dourada bolsinha de mão. Então conclui que minha cara de espanto é muito hilária, pois ele começou a rir imediatamente e eu, a duvidar da minha sanidade mental.
Segui em direção ao carro e ao entrar me vi no reflexo do vidro. Congelei. “Ah... Não acredito!”. Meu cabelo nunca estivera tão liso e meu rosto, nunca tão bem maquiado.
- “Tudo bem?” Ouvi Júlio perguntar. Precipitei-me pela porta, tomando meu assento, perplexa, e então sacudi a cabeça negativamente.
- “Você está linda!”
- “O-brigada” – Olhei para ele – “Como foi que isso...”
- “Não faço a mínina idéia.” Seu largo sorriso me fez duvidar de sua resposta, mas não insisti.
- “Bem, pra onde vamos?” Perguntei.
- “Dar uma voltinha.”
- “Posso dirigir?”
- “Não. Sem habilitação, nada feito.”
- “Não pode dar um jeitinho nisso?”
- “Nem pensar. Vamos, me dê a chave e feche a porta, por gentileza.” Pousei a chave em sua mão, fechei a porta, pus o cinto de segurança e então ele deu a partida. Permanecemos em silêncio, apenas ouvindo a música do rádio. A maior parte do tempo, Júlio preencheu me lançando olhares curiosos pintados com divertimento e, tenho certeza que, fazia um grande esforço para não rir; enquanto eu tentava entender toda aquela loucura. Pelo vidro pude ver as luzes passarem como riscos por nós. O ambiente me parecia familiar, mas definitivamente não eram da cidade onde moro. A velocidade reduziu gradativamente até parar. Estávamos em frente a uma boate onde havia uma multidão. No momento em que Júlio abriu a porta e eu me precipitei por ela para sair, milhares de flashes me cegaram e tudo o que pude ver foi a situação andar em câmera lenta: pessoas gritavam e eu permanecia sem entender.
- “Onde estamos?” Perguntei.
- “Em Las Vegas.”
“Não é possível!” Fui empurrada para dentro da boate e quando me deparei com aquela imensidão de cores e luzes, comecei a rir, incrédula. Antes mesmo que eu pudesse falar Júlio já dizia ao pé do meu ouvido:
- “Sem mais perguntas. Que tal se divertir agora?”
Afinal, que mais eu poderia fazer? Não havia saída e eu realmente não queria encontrar uma. Então concordei. Ele me tomou pela mão, me levou a um camarote e então dançamos a noite inteira. Foi maravilhoso estar bem acompanhada, rodeada de pessoas bonitas e não gastar um tostão.
Quando dei por mim já estava em casa tirando os calçados; o carro na garagem e o Júlio... Bem, não me lembro onde foi parar. Fui até a cozinha tomar um pouco de água e avistei um jornal sob a mesa. A imagem ali estampada me chamou a atenção: era uma foto a direita de uma matéria, retratando a frente de um carro, focando a placa do mesmo, com um belo par de pernas sob um salto, mais ao canto. A manchete dizia: “Quem será a dona?” Alguém deveria ter planejado aquilo muito bem e eu estava adorando. Primeiro o carro acompanhado de um cara lindo – ou vice e versa – depois a produção digna de uma rainha, em seguida uma noite fantástica e agora o melhor ângulo de minhas pernas estampadas na primeira página de um jornal. Que lou-cu-ra!
Ouvi um barulho distante e fui ver o que era, mas então tudo escureceu. Quando consegui enxergar novamente tudo o que vi foi o teto do meu quarto. Forcei meus olhos a se fecharem, apertando-os com toda a força. Rolei de lado, puxei o travesseiro por sobre minha cabeça e fiquei na esperança de não acordar. “Estou apenas sonhando que estou acordando” Claro, só podia ser isso. Ou não. “Volta sonho, volta. Não acordei não, ainda estou dormindo... Vamos continuar... Onde é que nós estávamos?” Gastei alguns minutos assim, tentando induzir meu cérebro a continuar aquela divertida projeção. Fora em vão, pois aquela doce realidade se desfizera com o raiar do dia.
Uma buzina soou em frente ao portão de minha casa. Minha mãe estava sentada no sofá – sem fazer nada – e me mandou atender a porta... É inacreditável! Até parece que eu estava desocupada mesmo. Mas mãe é mãe, então é melhor não discutir. Deixei minha pilha de roupa suja, a qual estava separando para lavar, e fui, arrastando o chinelo, descobrir quem era a criatura impaciente que estava buzinando no meu portão. Abri a porta e então me surpreendi. Posso não entender muito de carro, mas com certeza aquele que estava ali parado não era qualquer um. Aquele eu reconheceria a quilômetros de distância: um renault laguna coupé, lindo, grafite e reluzente parado em meu portão. “Quem pode ser?” Vasculhei minha mente em busca de algum conhecido que o tivesse comprado, mas nada. Pra ser sincera eu nem sabia que já havia um carro deste rodando pelas estradas brasileiras. Segui até o portão e as escuras películas me impediram de descobrir quem estava ali dentro. Abri o portão, me aproximei daquela belezura e quando me inclinei para a janela, vi a porta se abrir.
- “Entre.” Exitei. Me abaixei para ver quem era.
- “Entre.”
- “Não, obrigada”. Havia um rapaz moreno, de olhos castanhos claro, cabelo ‘amontoadinho’ estilo moicano – que eu adoro – sentado no banco do motorista, sorrindo pra mim. Lindo. Eu, porém, não o conhecia.
- “Quer falar com quem?”
- “Com você. Entre, por favor.”
- “Comigo? Por quê? Eu nem te conheço.”
- “Porque este carro é seu e eu precisava lhe entregar. Prazer, sou Júlio.” Comecei a rir.
- “Perdão, mas qual é a graça?”
- “Esse carro... Meu? Tá bom! Vai, me diz... Onde tá a câmera?”
- “Que câmera?” Ele me olhava assustado enquanto eu ria. Mas era estranho, ele parecia não entender.
- “Que estória é essa desse caro ser meu? Eu não comprei nada.”
- “Alguém resolveu te presentear.”
- “Quem?”
- “Não sei. Fui contratado para entregá-lo e para levá-la a onde quiser.”
- “Tá. Já pode parar com a brincadeira. O que você quer?”
- “Acabo de lhe dizer. Saiba que nada do que lhe disse é mentira. Anda, vamos dar uma volta. Não quer experimentar o carro novo?”
- “Não mesmo. Isso não é meu.” Dei as costas e voltei em direção a minha casa.
- “Laura, Laura... Espera!” Não faço idéia como aconteceu, mas ao dizer a última palavra ele já segurava meu braço, o que me fez parar.
- “Me solta!” – girei meus calcanhares e o encarei – “Eu não te conheço e não sei que tipo de brincadeira é essa. Vá embora!”
- “Não. Você já sabe meu nome e eu já lhe disse pra que vim. Se não quer acreditar, tudo bem, mas aqui estão as chaves e o documento do carro.”
Era impossível, lógico, mas ele pôs em minhas mãos ambos. Fiquei pasma. Olhei o documento e constatei que ele não mentia: meu nome preenchia o campo designado para o proprietário do veículo.
- “Eu não disse? Anda, pára de se fazer de difícil e vamos dar uma volta!”
- “Não tô me fazendo de difícil. E também, nem estou pronta pra sair.”
- “Tem certeza?”
O desdenho estampado em seu rosto me fez olhar para mim mesma. “Que diabos está acontecendo?” Eu tinha certeza que estava usando uma regata rosa, um shorts jeans, um par de meias brancas e chinelo. Naquele momento, porém, um lindo vestido acetinado branco com um cinto dourado estava em meu corpo e uma sandália divina calçava meus pés.
- “Mas quando foi que...” Ergui a cabeça e vi que Júlio não estava mais ali. Encontrava-se sentado dentro do carro, do mesmo modo em que o havia encontrado cinco minutos atrás.
- “Vamos!”
- “Espera! Eu preciso pegar minha bolsa.”
- “Qual? Essa?” Ele ergueu uma dourada bolsinha de mão. Então conclui que minha cara de espanto é muito hilária, pois ele começou a rir imediatamente e eu, a duvidar da minha sanidade mental.
Segui em direção ao carro e ao entrar me vi no reflexo do vidro. Congelei. “Ah... Não acredito!”. Meu cabelo nunca estivera tão liso e meu rosto, nunca tão bem maquiado.
- “Tudo bem?” Ouvi Júlio perguntar. Precipitei-me pela porta, tomando meu assento, perplexa, e então sacudi a cabeça negativamente.
- “Você está linda!”
- “O-brigada” – Olhei para ele – “Como foi que isso...”
- “Não faço a mínina idéia.” Seu largo sorriso me fez duvidar de sua resposta, mas não insisti.
- “Bem, pra onde vamos?” Perguntei.
- “Dar uma voltinha.”
- “Posso dirigir?”
- “Não. Sem habilitação, nada feito.”
- “Não pode dar um jeitinho nisso?”
- “Nem pensar. Vamos, me dê a chave e feche a porta, por gentileza.” Pousei a chave em sua mão, fechei a porta, pus o cinto de segurança e então ele deu a partida. Permanecemos em silêncio, apenas ouvindo a música do rádio. A maior parte do tempo, Júlio preencheu me lançando olhares curiosos pintados com divertimento e, tenho certeza que, fazia um grande esforço para não rir; enquanto eu tentava entender toda aquela loucura. Pelo vidro pude ver as luzes passarem como riscos por nós. O ambiente me parecia familiar, mas definitivamente não eram da cidade onde moro. A velocidade reduziu gradativamente até parar. Estávamos em frente a uma boate onde havia uma multidão. No momento em que Júlio abriu a porta e eu me precipitei por ela para sair, milhares de flashes me cegaram e tudo o que pude ver foi a situação andar em câmera lenta: pessoas gritavam e eu permanecia sem entender.
- “Onde estamos?” Perguntei.
- “Em Las Vegas.”
“Não é possível!” Fui empurrada para dentro da boate e quando me deparei com aquela imensidão de cores e luzes, comecei a rir, incrédula. Antes mesmo que eu pudesse falar Júlio já dizia ao pé do meu ouvido:
- “Sem mais perguntas. Que tal se divertir agora?”
Afinal, que mais eu poderia fazer? Não havia saída e eu realmente não queria encontrar uma. Então concordei. Ele me tomou pela mão, me levou a um camarote e então dançamos a noite inteira. Foi maravilhoso estar bem acompanhada, rodeada de pessoas bonitas e não gastar um tostão.
Quando dei por mim já estava em casa tirando os calçados; o carro na garagem e o Júlio... Bem, não me lembro onde foi parar. Fui até a cozinha tomar um pouco de água e avistei um jornal sob a mesa. A imagem ali estampada me chamou a atenção: era uma foto a direita de uma matéria, retratando a frente de um carro, focando a placa do mesmo, com um belo par de pernas sob um salto, mais ao canto. A manchete dizia: “Quem será a dona?” Alguém deveria ter planejado aquilo muito bem e eu estava adorando. Primeiro o carro acompanhado de um cara lindo – ou vice e versa – depois a produção digna de uma rainha, em seguida uma noite fantástica e agora o melhor ângulo de minhas pernas estampadas na primeira página de um jornal. Que lou-cu-ra!
Ouvi um barulho distante e fui ver o que era, mas então tudo escureceu. Quando consegui enxergar novamente tudo o que vi foi o teto do meu quarto. Forcei meus olhos a se fecharem, apertando-os com toda a força. Rolei de lado, puxei o travesseiro por sobre minha cabeça e fiquei na esperança de não acordar. “Estou apenas sonhando que estou acordando” Claro, só podia ser isso. Ou não. “Volta sonho, volta. Não acordei não, ainda estou dormindo... Vamos continuar... Onde é que nós estávamos?” Gastei alguns minutos assim, tentando induzir meu cérebro a continuar aquela divertida projeção. Fora em vão, pois aquela doce realidade se desfizera com o raiar do dia.