quinta-feira, 9 de julho de 2009

Irrevogável

- “Não seja RIDÍCULO! JÁ CHEGA!”
Seus cabelos voaram e atingiram meu rosto, no momento em que decidida, e furiosa, saiu da fila e foi, imagino eu, para casa. O ambiente ficou tenso. As pessoas pararam de falar e começaram a olhar ansiosas para mim. Eu, de imediato, corei. Sempre fui muito tímido. Ainda sou. Mas ela sempre acaba me expondo, parece que faz questão de chamar atenção. Quando não no modo de se vestir, o faz nas atitudes. Como hoje. Não lembro bem o que vestia, mas, estava linda, era algo discreto combinado a um salto-alto. Sempre sai de salto. A desculpa é sempre a mesma: “Eu preciso diminuir nossa diferença de tamanho.” De fato ela não é muito alta. Mesmo de salto, ainda é uma cabeça menor que eu. Mas se não fosse esse bendito salto, ela não teria se irritado.
O ambiente ainda continua pesado. As pessoas me encaram como se eu tivesse a obrigação de sair da fila e ir atrás dela. Não mesmo! Há meses estou esperando a estréia deste filme e ela sabe muito bem disso, assim como estava ciente que ficaríamos horas na fila para poder adquirir o ingresso. Quando falei do salto, ela veio com a desculpa de sempre, mas depois de ficar uma hora e meia de pé, esperando, começou a reclamar. Eu bem tinha avisado, ela que não quis ouvir. Quando lhe falei isso, instantaneamente começou a se alterar e em vão, tentar me convencer de desistir. “Nem pensar! Nem que eu pegue só a última sessão.” E pronto. Simplesmente se foi. Eu nunca protesto, evito discutir e sempre faço suas vontades. Mas dessa vez, não.
As pessoas cochicham, e ainda me lançam olhares de repreensão. A fila caminha lenta. Creio que falta menos de meia hora para eu chegar ao caixa. No fim das contas tudo vai dar certo: vou assistir ao filme mais esperado de todos os tempos. E quanto a minha namorada... Nada que umas belas flores não resolvam.