Já passa das 18h. É final de junho, solstício de inverno no hemisfério sul. A terra se aproxima do afélio. O ar está seco e o céu estrelado, sem incidência de nuvens. Leves brisas gélidas roçam meu rosto a intervalos irregulares de tempo. Estou a caminho de casa, andando por uma calçada cheia de pessoas que cerca uma rua movimentada. Minha vizinha, e também colega de trabalho, não foi trabalhar hoje. Amanheceu com 40º de febre e uma forte dor de garganta. Por isso estou voltando sozinha para casa. É estranho. Apesar de meu emprego não ficar muito longe de meu apartamento, não me sinto segura. Onde estou agora há dezenas de pessoas a meu redor, então tudo bem. Mas daqui a cinco minutos, quando terei de entrar numa rua à direita, que certamente estará deserta e muito mal iluminada, os 10 cm de salto que uso não contribuirão para uma corrida, caso precise. “Mas que tolice! Pra quê correr? O que pode acontecer em três quadras até eu chegar ao prédio?” Meu coração bate mais forte, enquanto súbitos pensamentos negativos passam por minha mente.
Estou virando à direita. Como imaginei, a rua está vazia, mal iluminada pelas luzes dos postes e sombria por tamanha escuridão enfatizada pelas árvores. Inspiro profundamente e sigo. Um crescente temor sobe por meu corpo. “O que há demais em uma rua deserta?” Em vão, porém, fico repetindo isso para mim mesma como forma de estimular confiança.
“Faltam apenas duas quadras.” Fico mais aliviada, como agora, enquanto estou sendo iluminada pela luz do poste... Estava. A luz piscou e se apagou. A acluofobia me invade. Sinto um tremor que não é de frio. Apresso o passo em direção ao outro foco de luz que não está tão próximo, pois as seguintes lâmpadas estão queimadas também. Algo me pressiona e dificulta a respiração. Pânico. Por mais rápido que eu caminhe, a iluminação desejada não chega. Ouço o roncar de uma moto. O pânico aumenta. Seguro com mais força minha bolsa. Estou desesperada! E sufocando o desejo de gritar. O som se aproxima lentamente. Meus passos de estreitam, enfim chego à luz. Falta-me coragem para olhar para trás. Logo alcanço a outra quadra e o motoqueiro com todos os seus acessórios passa por mim. Abaixo a cabeça. Ele segue, mas não sei se me olha.
“Só essa quadra!” Pulsações frenéticas, tremor e medo. Muito medo. Ergo a cabeça e então paraliso: o motoqueiro está parado em frente ao portão de meu prédio. Continuo a caminhar e me surpreendo com o barulho das folhas das árvores, produzido pelo vento. “Ele não vai fazer nada. Se fizer, grito. Corro. Esperneio. Espanco-o.”
“Menos de três metros.” Inspira, expira. Inspira, expira...
Estou passando por ele. “Nada vai acontecer. Nada vai acontecer. Nada vai acontecer!” Sinto ele me encarar. Não há ninguém na portaria do prédio. “Nada vai acontecer. Nada vai acontecer. Pronto, já passei por ele. O perigo acabou!”
- Ei...
Sinto cada parte de meu corpo enrijecer de pavor. O medo faz doer. “Não pare, não pare...”
- Ei , moça.
A voz está mais próxima. “Continue andando, continue andando.”
- Por favor.
A voz está extremamente próxima. Paro. Inspiro. Giro meus calcanhares e fico de frente para ele.
- Sim?
Ele está sem capacete. Tem olhos negros, barba, cabelo curto. É alto, traja uma roupa preta. Traz um papel numa das mãos e a outra conserva no bolso.
- Este é o número 182?
- É... É sim.
- A senhora Márcia mora aqui?
- Márcia? Mo...
- Moro sim. É da farmácia?
Uma voz as minhas costas me sobre-salta. Minha vizinha pôs-se atrás de mim, coberta com espessos casacos e com uma péssima aparência.
- Sim. Aqui estão seus remédios, senhora. São R$25,00.
- Coff coff... Muito obrigada. Oi Carla, como está?
Perplexa, sentindo o medo se esvair, trazendo uma estranha sensação de alívio, e incrédula por deixar meu psicológico gerar tamanho pânico; por ser alimentada por minha mente; por exagerar na preocupação; por deixar uma fobia crescer e me domar.
- Carla?
Não, evidentemente, a Márcia não precisa saber disso.
Estou virando à direita. Como imaginei, a rua está vazia, mal iluminada pelas luzes dos postes e sombria por tamanha escuridão enfatizada pelas árvores. Inspiro profundamente e sigo. Um crescente temor sobe por meu corpo. “O que há demais em uma rua deserta?” Em vão, porém, fico repetindo isso para mim mesma como forma de estimular confiança.
“Faltam apenas duas quadras.” Fico mais aliviada, como agora, enquanto estou sendo iluminada pela luz do poste... Estava. A luz piscou e se apagou. A acluofobia me invade. Sinto um tremor que não é de frio. Apresso o passo em direção ao outro foco de luz que não está tão próximo, pois as seguintes lâmpadas estão queimadas também. Algo me pressiona e dificulta a respiração. Pânico. Por mais rápido que eu caminhe, a iluminação desejada não chega. Ouço o roncar de uma moto. O pânico aumenta. Seguro com mais força minha bolsa. Estou desesperada! E sufocando o desejo de gritar. O som se aproxima lentamente. Meus passos de estreitam, enfim chego à luz. Falta-me coragem para olhar para trás. Logo alcanço a outra quadra e o motoqueiro com todos os seus acessórios passa por mim. Abaixo a cabeça. Ele segue, mas não sei se me olha.
“Só essa quadra!” Pulsações frenéticas, tremor e medo. Muito medo. Ergo a cabeça e então paraliso: o motoqueiro está parado em frente ao portão de meu prédio. Continuo a caminhar e me surpreendo com o barulho das folhas das árvores, produzido pelo vento. “Ele não vai fazer nada. Se fizer, grito. Corro. Esperneio. Espanco-o.”
“Menos de três metros.” Inspira, expira. Inspira, expira...
Estou passando por ele. “Nada vai acontecer. Nada vai acontecer. Nada vai acontecer!” Sinto ele me encarar. Não há ninguém na portaria do prédio. “Nada vai acontecer. Nada vai acontecer. Pronto, já passei por ele. O perigo acabou!”
- Ei...
Sinto cada parte de meu corpo enrijecer de pavor. O medo faz doer. “Não pare, não pare...”
- Ei , moça.
A voz está mais próxima. “Continue andando, continue andando.”
- Por favor.
A voz está extremamente próxima. Paro. Inspiro. Giro meus calcanhares e fico de frente para ele.
- Sim?
Ele está sem capacete. Tem olhos negros, barba, cabelo curto. É alto, traja uma roupa preta. Traz um papel numa das mãos e a outra conserva no bolso.
- Este é o número 182?
- É... É sim.
- A senhora Márcia mora aqui?
- Márcia? Mo...
- Moro sim. É da farmácia?
Uma voz as minhas costas me sobre-salta. Minha vizinha pôs-se atrás de mim, coberta com espessos casacos e com uma péssima aparência.
- Sim. Aqui estão seus remédios, senhora. São R$25,00.
- Coff coff... Muito obrigada. Oi Carla, como está?
Perplexa, sentindo o medo se esvair, trazendo uma estranha sensação de alívio, e incrédula por deixar meu psicológico gerar tamanho pânico; por ser alimentada por minha mente; por exagerar na preocupação; por deixar uma fobia crescer e me domar.
- Carla?
Não, evidentemente, a Márcia não precisa saber disso.