quinta-feira, 28 de maio de 2009

Tenho medo

Tenho medo de um dia acordar, olhar pela janela e ver um dia, aparentemente, comum. Mas quando for lavar meu rosto, abrir a torneira e perceber que a água que corre pelos encanamentos já não é tão pura. E quando sentar-me para tomar o café, ouvindo as notícias no rádio, descobrir que o número de mortos aumentou, o de doações de órgãos diminuiu e que mais uma nova doença tem contagiado a população mundial. Ao me vestir e ir para o trabalho sob a garoa, ouvir a insatisfação por tê-la. No caminho, encontrar crianças e animais maltratados, machucados, famintos que talvez nunca tenham desfrutado de um carinho.
Quando em meu emprego chegar, deparar-me com estresse, reclamações, mau-humor e junto deles ter de passar o dia; lidar com arrogância; fornecer produtos e embalá-los com tristeza, por toda a destruição ambiental gerada para produzi-los. Quando o dia findar, voltar para casa e quase em minha frente ver um acidente acontecer, e ouvir os envolvidos discutirem sobre erros e quem pagará os prejuízos. Não ouvir pássaros cantando, não sentir alegria, não saborear o silêncio. Chegar então em meu lar, tomar um banho com a esperança de que ele purifique minha alma. Sentar-me no sofá, ver a hipocrisia explicita na televisão e então adormecer.
Tenho medo de sentir esse medo, e mais do que tudo, medo disso já acontecer. Temo ser alguém imparcial, não fazer o suficiente, enxergar tudo e não agir. Temo pela falta de amor, mas principalmente, pela vida. Não a minha. Pelas vidas que chegarão a este mundo e o encontrarão, lamentavelmente, destruído.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Criaturinhas do adormecer

Gnomos são seres nada encantadores, pelo menos no meu ponto de vista, analisando os que conheço. Como se sabe, segundo alguns relatos durante a história, eles são seres elementares da terra e guardam tesouros íntimos da humanidade. Por não suportarem a luz do sol, tornam-se invisíveis durante o dia, uma vez que se infiltram nas entranhas da terra para exercerem suas funções, as quais desconheço. Com exceção de uma: enquanto mantêm-se ocultos durante o dia, à noite saem para levar o sono às pessoas. E realmente são bons nisso. Nem sempre os vejo, mas confesso que a primeira vez foi de grande espanto. Eles são pequeninos, medem cerca de 15 cm de altura, devem ter em torno de 300g; possuem a cabeça desproporcionalmente maior que o corpo; orelhas pontiagudas; olhos grandes e amendoados; e não são sujos como imaginei. São bem limpinhos e usam roupas estilo ‘papai-noel’, porém em cores suaves; usam tocas e aqueles sapatinhos com a ponta enrolada para cima também. Posso dizer que são bonitinhos e até engraçadinhos, mas só até o momento em que aparecem, ficam brincando de ‘esconde-esconde’ por trás dos móveis e objetos que estão em minha volta e dando ‘tchauzinho’. A partir daí tenho que tomar cuidado, pois logo outros aparecem e cada vez vão surgindo mais.
Com suas carinhas sorridentes, chamam minha atenção e quando dou por mim já são dezenas a meu redor, alguns em meus ombros, outros sob minha cabeça, e outros pendurados em minha roupa. Basta me sacudir um pouco para todos caírem, mas em seguida repetem a ação com mais voracidade e assim vão me enlouquecendo, causando-me alucinações. Vejo uma espécie de ‘pozinho’ brilhante que gera em mim certa moleza, uma preguiça, lerdeza, sonolência...
Ouço um barulho familiar. Abro meus olhos e me dou conta de que estou deitada em minha cama, que já são 7h da manhã e que o barulho que ouço é de meu despertador confirmando o nascer de um novo dia. Não me pergunte como fui parar ali, pois sinceramente não sei. Para ser franca, ainda não descobri uma maneira de me defender desses benditos gnomos, sempre acabo me rendendo a eles.
Uma coisa posso dizer: tome cuidado! Quando sentir seus olhos pesando, bocejos seguidos e uma facilidade de distração, saiba que mesmo não os vendo, eles se aproximaram de você. Sim, são eles. Os gnomos que vieram te fazer adormecer. Como conta J. K. Rowling, em uma de suas mais famosas obras, gnomos são uma praga. Então, não se deixe levar.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Prazer, sou Flor.



Flor era magra, tinha cabelos longos, extremamente lisos e sempre os pintava de ‘azul berrante’, o que causava um tremendo contraste com sua pele clara. Adorava fazer combinações de roupas e usava algumas de suas criações, mas não gostava de coisas vulgares. Maquiagem era algo indispensável: usava muito lápis, rímel e delineador, todos sempre na cor preta para valorizar seus olhos azuis; um pouco de blush para corar seu rosto e batom ‘vermelho sangue’. Além dos quatro furos em cada orelha, ela tinha um piercing no nariz e a tatuagem de uma fada um pouco abaixo da nuca. Toda essa (des)combinação agredia visualmente o ambiente em que se encontrava. Pelo menos essa era a opinião das demais pessoas, porque Flor realmente não se importava com isso. Não era tímida, tampouco popular. Era de fato conhecida por sua aparência e devido a isso as pessoas a julgavam dizendo não ter boa índole e assim, temendo comentários alheios, elas nem se quer aproximavam-se dela.
É lamentável verem apenas seu exterior. Os únicos que realmente a conheciam eram seus amigos e sua mãe, os quais deixara em sua cidade natal quando decidira ir em busca de uma boa formação profissional. Somente eles sabiam que Flor era apaixonada por livros, que apreciava música clássica, que sabia tocar flauta, violino e bateria, e que colecionava bibelôs. Sabiam quão determinada, inteligente, prestativa, vaidosa, divertida e autocrítica era e foi por ter seu senso crítico um tanto aguçado que ela manteve sua aparência.
Quando então se cansou, resolveu chamar a atenção – não que não o fizesse todas as vezes que adentrasse algum ambiente, mas iria fazê-lo de outra maneira. Expôs nos corredores da faculdade réplicas em preto e branco da foto de uma pessoa desconhecida com uma expressão de seriedade e junto a elas a repetição da frase “DIFERENÇA É UMA VIRTUDE”. Quem muito minuciosamente observasse notaria que a disposição, das imagens e das frases, compunha a palavra ‘indiferença’. Como era de se esperar, vários comentários surgiram e foi no auge deles que Flor subiu em uma mesa, soltou sua bolsa e começou a falar:
- Indiferença, hipocrisia e vãos julgamentos. É disso que se constitui a sociedade em que vivemos. Não são as vaias que vão me fazer parar, nem os risos que vão me intimidar, muito menos esses comentários mesquinhos sobre quem vocês acham que sou. Por que é que tenho cabelo azul? Por que não tenho os mesmo gostos que vocês? Por não sigo os padrões da moda? Por que me exponho? Ora, por puro prazer. Gosto de ser assim! Afinal, quem foi que disse o que é certo e o que não é? O que é bonito e o que não é?
Uma multidão estava parada, perplexa com tudo aquilo e sem o mínino de entendimento. Então, Flor deu uma gargalhada que ecoou pelo campus.
- Pobres mentes vazias que se deixam levar pelos outros... Tudo é relativo!
Ela ajuntou sua bolsa e antes de sair, saudou:
- Prazer, sou Flor.
Desceu da mesa e foi embora cantarolando algo que ninguém conseguiu entender, enquanto o silêncio reinava naquele lugar.

sexta-feira, 15 de maio de 2009


"[...]Ah, bom foi o tempo em que o mundo parava nos encontros de olhares e a realidade era instantaneamente apagada. [...] As idéias não são mais as mesmas, nem os desejos, nem os sonhos, nem os encontros, nem as conversas... Tudo mudou! Até o terminal, que embora continue sendo o mesmo, hoje não passa de apenas mais um."


Trecho de "O Terminal" (Micheli Oliveira)

terça-feira, 12 de maio de 2009

Um Alguém

Acabara de anoitecer. A lua, majestosa, exibia-se rodeada de estrelas enquanto apreciando-a Laura aguardava a chegada de alguém. As pessoas estavam agitadas. Transmitiam inconfundível satisfação e o brilho no olhar confirmava o sentimento de alegria. Estavam ao som de “If you don’t wanna love me” do James Morrison, mas a maioria nem se quer apreciava o doce embalar daquela triste canção. Gargalhadas eram ouvidas. O ambiente estava praticamente cheio, não fossem duas ou três mesas, mais ao canto, desocupadas. O ambiente era um tanto rústico, construído quase que totalmente de madeira de lei, com umas luminárias penduradas no teto, uma decoração simples e aconchegante, sendo que todo aquele conjunto lembrava aquelas casas em meio às florestas que sempre se vê nos filmes. Laura aprecia muito aquele lugar, embora permanecesse sentada, sozinha, olhando a lua. Ali e ao mesmo tempo tão distante. Então, despercebidamente, ela voltou seu olhar para o ambiente em que se encontrava e ao mirar a porta de entrada sentiu-se como sendo puxada novamente para a realidade. Algo a trouxe de volta do lugar tão distante onde estivera há segundos atrás: um rosto, expressivamente feliz, com um brilho malicioso no olhar o qual se acentuava com o loiro de seu cabelo, o que o tornava extremamente belo: Lucas. Repentinamente uma felicidade incontrolável tomara conta de Laura, o que quase a fizera gritar e correr em direção a ele... Não! No momento em que iria se levantar e deixar-se dominar por aquele impulso, tudo mudou completamente. Aquele sentimento fora substituído por medo, vergonha, tristeza, orgulho e decepção: ele não estava sozinho, estava acompanhado, e, diga-se de passagem, mesmo com o ciúme corroendo-a por dentro, achava que ele estava muito bem acompanhado. Ela era morena, tinha seus cabelos lisos e longos; era magra, tinha aparentemente a mesma estatura que ele e parecia ser bastante simpática. Ambos seguiam em sua direção. Foi quando pode notar o belo casal que formavam.
Nunca tantos sentimentos haviam se manifestado simultaneamente. Era como um bombardeio. Uma guerra se formava em seu interior enquanto o mundo parecia ter parado. Passou, então, a ouvir o ponteiro do seu relógio de pulso: tic-tac tic-tac tic-tac tiraram-lhe o chão tic-tac tic-tac tic-tac tic-tac seu coração estava prestes a explodir tic-tac tic-tac tic-tac tic-tac tic-tac o desespero tomou conta tic-tac tic-tac tic-tac tic-tac tic-tac tic-tac buuum! Uma explosão sonora despertou-a. Os movimentos haviam voltado a seu ritmo normal. Laura sentiu-se desvanecer, mas deixou a esperança que lhe restava reanimá-la. Os vira passar por ela, mas estes nem se quer notaram sua presença, ou não quiseram notar. Chamou o garçom e pediu a conta, pois constatara que era em vão permanecer ali a espera de alguém... Uma pura ilusão. Deixou o lugar e seguiu caminhando pela calçada. No céu, a lua ainda estava a acompanhá-la, porém um tanto oculta devido às nuvens que agora começavam a derramar seus pingos de chuva... E assim, para casa voltaram: Laura, a lua, os pingos de chuva e um alguém chamado solidão.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Percepção

Era um belo domingo de sol e eu estava em uma daquelas festas de igreja que são realizadas para arrecadar fundos para a comunidade. Enquanto o churrasco não ficava pronto, me divertia com os familiares e conhecidos contando casos que haviam acontecido. Ainda aos risos, iniciamos nosso almoço.
- “Po-po-pode abrir pra mim?” a partir daí o mundo começou a girar mais devagar e o som de todos que ali estavam foi para outra dimensão. Um senhor que aparentava estar em seus setenta e poucos anos se aproximara de nossa mesa e acabara de pedir ajuda para abrir a embalagem de um daqueles espetinhos feitos com morango e cobertos com chocolate.
- “Claro.” Imediatamente uma expressão de alegria formou-se em seu rosto. Ele agradeceu e saiu. Então pude perceber que trajava uma calça, um moletom e um boné, tudo muito simples. Ele sentou-se numa mesa próxima a nossa, procurando se esconder. Virou-se de frente para uma parede, abriu sua lata de coca-cola e colocou-a sob a mesa, então descobriu apressado o plástico daquele doce e deliciou-se. Sua expressão era extremamente bela: era inocente, prazerosa, algo realmente encantador.
Suas rugas, seus cabelos grisalhos e suas manchas revelavam uma vida sofrida; o fato de estar ali, se escondendo, sozinho, me fez pensar que talvez a vida não tenha sido tão generosa com ele, que talvez não dispusesse de dinheiro e nem do amor de sua família; e o modo com que agia confirmava a realização de uma experiência completamente inovadora.
Rapidamente ele o devorou, intercalando uma mordida e vários goles de seu refrigerante. Foi tudo muito rápido e logo de minha vista ele sumiu. Os poucos instantes em que o observei, ouvindo ao longe as repreensões de minha irmã que dizia para eu parar de olhá-lo, pois não passava de apenas mais uma pessoa qualquer, ganhei meu dia imaginando como será minha velhice, e como terá sido a vida daquele homem. Na mais otimista das previsões ele era apenas mais um senhor, aposentado, que tinha saído de sua casa e ido em busca das coisas que mais gostava de saborear em sua simples vida.

segunda-feira, 4 de maio de 2009


Seja melhor, pense coisas boas, faça mais amigos.
Pense nos outros, faça boas ações, seja sincero.
Faça sorrisos, seja compreensivo, pense antes de agir.
Seja: Pense e faça!
Ou simplismente leve a vida a seu jeito.

O amor não acaba, muda.
Mas não se esqueça: tudo é, muito, relativo.