Mais um dia de chuva. Nada para se espantar morando na terceira cidade que mais chove no mundo. Não que eu não goste da chuva. Gosto, claro. Ela é necessária, afinal. Só não me sinto muito bem e não gosto de ver como os dias são chatos quando há sua presença. Certamente eu mesma o taxo assim e não faço nada para que essa situação seja diferente. Pode parecer futilidade, mas não gosto de toda essa umidade em contato com meu cabelo, fico realmente irritada com isso. Olhar-me no espelho então, nem pensar.
Apesar de tudo há algo que sempre acontece nesses dias.
-“Sai da chuva cachorra burra!”
Quem foi que disse que adianta gritar? Ela sempre fica deitada debaixo da chuva, mordendo seu paninho, que há essa hora deve estar encharcado e impossibilitado de ser um cobertor à noite. Ao ouvir minha voz ela simplesmente fica radiante e vem a toda velocidade pulando, molhada, se jogar em cima de mim.
-“Nããããão! Sai daqui. Saaaaaaai!”
Já estou correndo tentando escapar de suas patas sujas e molhadas. Enquanto enlouqueço, ela se diverte. Corre atrás de mim, passa por entre minhas pernas, toma a frente, pula feito um canguru e em meio a meus gritos e insultos ela avança com todo o seu peso, sem nem ligar se vai ou não se machucar, então se choca contra mim e busco a todo o custo não perder o equilíbrio. Pronto! Já estou suja, molhada, descabelada, com uma cadela apoiando suas patas em minhas pernas e esticando o foscinho como um pedido de carinho.
-“Sua retardada!”
Só me resta rir e afagar essa criatura doce que veio me tirar da monotonia.
"[...] Sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!"