quarta-feira, 21 de outubro de 2009

A carta

O carteiro tinha acabado de entregar a correspondência. Peguei a pilha de cartas e fui até o escritório entregá-las a meu pai, que hoje estava trabalhando em casa. Durante o percurso fui olhando os remetentes e verificando se não havia uma mala-direta que fosse para mim. Bati a porta antes de entrar e quando adentrei surpreendi-me com a carta da vez. Lúcia da Luz Moura. Este era o nome da remetente. Este era o nome da minha mãe.
- Lud, - meu pai estranhara meu recuo. – aconteceu alguma coisa?
Era coincidência demais. Porém, minha mãe estava morta e não podia mandar cartas.
- Não, só a correspondência. – disse-lhe sorrindo. Encaminhei-me até sua mesa e lhe entreguei as cartas. A que me tinha chamado atenção estava por cima, então aguardei sua reação. Ele olhou o nome e surpreendeu-se tanto quando eu. Seus olhos vacilaram para meu rosto, em pânico, e pude vê-lo empalidecer.
- Coincidência, não? – questionei. Ele apenas assentiu, olhando o envelope ainda em sua mão.
- Não vai abrir?
- Depois. – sua resposta foi dura e ligeira.
- Ah, qual é pai? Existem pessoas com o mesmo nome! – sua reação me deixara confusa. Por que tanto... Medo?!
- Saia. – ele estava sendo extremamente autoritário e isso me lembrou do quanto odeio quando ele me trata como criança.
- Por quê? – Encarei-o em busca de uma resposta coerente. Nada. – Não precisa ficar assim pai. Você sabe melhor do que eu que essa carta não pode ser da minha mãe. Ela está... – Calei-me, só então compreendendo aquela situação.
- Saia, Ludmila! – Minha mãe não estava morta.
- Essa carta é de minha mãe?
- Sua mãe morreu.
- Será?
- Eu já te contei toda a história minha filha, por favor...
- Chega papai! – Eu estava cansada de meias verdades; cansada de suas fugas quando o assunto era minha mãe; cansada do jeito infantil que ele me tratava; e não havia hora melhor para reivindicar minha frustração. – Me conte a verdade.
- Você já a conhece! – Ele baixou os olhos finalizando a conversa e ocupando-se de outras coisas. Mas eu resisti. Se aquela carta era da minha mãe, então ela não morrera ao me dar a luz como ele mesmo me dissera... Mas onde ela estava então? Por que nos abandonara? Por que meu pai mentiu todo esse tempo sobre isso? Se eu não descobrisse tudo naquele momento, jamais o faria.
- Só a sua versão mal contada. – Retruquei, cruzando os braços no colo.
- Desculpe por ser um mau contador de histórias. – Ele me olhou magoado.
- Não, não é isso... Seu mal pai, é sempre falar comigo as palavras pela metade. Você não vê que eu cresci? – ele baixou os olhos novamente e ocupou-se do trabalho – Que já dá pra contar comigo do seu lado? – seu modo de agir me enfurecia. Parecia que minhas palavras não tinham importância, que eu não passava de uma criança chorona. – Olha pra mim, pai! – Bati meus punhos com força sob a mesa. Ele me olhou com repreensão. Eu nunca tinha me exaltado com ele antes. Senti-me um pouco envergonhada, mas ele estava fazendo pouco caso das coisas que eu julgava importante. Aprecei-me a falar, justificando meus atos. – Eu não gosto quando estou falando com você e você faz essa cara de muito ocupado. Parece que tudo o que eu digo é bobagem. – lamentei.
- E não é? – Ele me olhou com desdém.
- Não é! - a fúria que brilhou em seus olhos quando voltei a aumentar o tom, me fez lembrar de quem ele era. – É sério. – completei em tom normal.
Ele permaneceu em silêncio, apenas me olhando. Seu rosto indecifrável.
– Não há nada pior pra um filho do que o silêncio dos pais... – lamentei em baixa voz. E então me lembrei de algo que sempre trouxe comigo e que meu pai nunca tivera conhecimento. Algo que eu sabia que o faria vacilar; que o faria me dizer toda a verdade. Eu estava longe, vagando por minhas lembranças e só pude compreender palavras soltas que não faziam sentido pra mim. Tomei coragem e o interrompi:
- E... Se eu te disser que toda a noite eu sonho com ela? – uma lágrima correu por meu rosto, e eu já não via mais meu pai, e sim o exato instante em que sempre encontrava minha mãe. – Ela vem na minha cabeceira e me dá um beijo de boa noite...
- Para com brincadeira, Ludmila.
Foquei meu pai novamente e o encontrei apavorado.
- Eu juro! Posso até dizer o perfume que ela usa. – Era algo floral, doce e que só por lembrar do cheiro meu coração pulava de alegria. Vi o machão a minha frente se desmanchar. Meu pai tinha um bom coração, mas só agora pode ver a dor que eu trazia. Contornei a mesa, aproximando-me dele. Abaixei-me, tomando suas mãos entre as minhas. Ele estava cabisbaixo.
- Fala da minha mãe, pai. – ele me fitou – Chega de ficar inventando como se eu fosse um bebezinho. Eu sou uma mulher. – Ambos trazíamos lágrimas nos olhos. – Olha pra mim, eu sou uma mulher. – Ele respirou fundo.
- Eu sei. – então me apertou num abraço. Compartilhamos nossa dor, liberando-a pelo choro. Embora sempre juntos, eu jamais estivera tão perto dele. Eu estava certa de ter rompido a barreira que me impedia de entender seu coração. Ficamos ali por alguns minutos e quando o abraço findou, aninhei-me a seu lado para ouvir, pela primeira vez, a completa história de nossas vidas.