terça-feira, 28 de julho de 2009

Retratos e nostalgia

Quão lastimável é a praia no inverno. Nunca perde sua beleza, mas sempre sugere um tanto de solidão.
Os fortes ventos de beira mar trazem consigo saudades que há tanto escondemos no mais profundo de nosso interior. É como olhar fotografias: ver momentos marcantes, datas especiais, quão pequenos éramos, e depois encher os olhos de lágrimas por saber que são tempos que não voltarão mais. Chega até ser maldade querer registrar momentos e deixá-los eternamente congelados num retrato, para futuramente sorrir um riso de saudade ao apreciá-lo.
Que dó olhar a vasta faixa de areia e encontrá-la vazia. É algo tão triste e, simultaneamente, tão belo. Recordar o calor dos raios solares, da multidão, da música, dos risos, da variedade de guarda-sóis multicoloridos... E agora, porém, apenas sentir a forte maresia que a invade.
Se me fosse possível, registraria a aparência de minh’alma no exato momento de recordar. Não em fotografias, mas em retratos que não congelassem e que exalassem toda aquela boa energia ao serem vistos. Para que, assim, pudesse perceber que apesar do passar dos anos ainda existem coisas muito belas para serem vistas e outras, mais belas ainda, para serem sentidas.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Santa Chuva



Compositor: Marcelo Camelo
Intérprete: Maria Rita

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Chuva que vem e vai

Doce chuva que os ventos trazem de longe e fazem os pingos chegarem a minha janela, venha de mansinho e carregue consigo toda a pureza da vida. Distribua conforto e apazigúe todas as minhas dores; afogue minha tristeza em suas gotas de compaixão; regue em mim o amor e vá lavando meu pobre coração, para que ele se encha da sua compreensão e dissolva a pedra que o sufoca.
Chuva amiga se apresse! O dia já vai findar. Pela janela posso ver o crepúsculo e um fraco raio de sol, exausto, ainda lutando contra ti. Pobrezinho, já não tem mais força; pobre de mim, que não suporto mais a espera.
Vá, vá! Já podes ir chuva querida. Sua tarefa está cumprida. Ande logo, deixe a lua brilhar. Deixe-a trazer a quem tanto quero cuja mágoa lavasse de meu coração. E se puder, avise as estrelas para o guiarem e o trazerem depressa. Pois, agora, quem me consome é a ansiedade até o momento em que poderei tocá-lo novamente.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Devaneios

Alegria, sintonia, desejo, fascinação, satisfação, desespero, euforia. Ah, como quero experimentar o surreal! Quero ousar, quero mentir, quero ser alguém que não sou e depois poder voltar a meu 'mundinho'. Chegar ao extremo, ao cume mais alto e de lá decolar para um vôo sem fim...
Existe algo que cresce em meu interior. Um monstro. Aliás, monstro não. Um bicho. Um bicho indecifrável, que por vezes permanece adormecido e quase desaparece quando os sonhos se esvaem e a crença é pequena demais. Basta uma possibilidade surgir para ouvi-lo bocejar confirmando sua existência. Por vezes, apenas vira-se de lado e continua a dormir, em outras, porém, desperta lentamente e vai gerando inúmeros sentimentos. Plantando vida e fazendo os olhos arderem de confiança. Esse amigo-inimigo não me assusta, mas causa um medo despreocupado que sugere, a mim, enlouquecer. Ora, que medo tolo! Desde que se esteja feliz de que importa a loucura?
Ah, vontades que satisfazem meu ego. Ah, bicho malvado que me vicia, me leva ao êxtase supremo e me devora. Não quero o negativo, muito menos pesadelo. Quero ser insana. Quero sonho, quero alcançar. Quero me superar. Mesmo que a sociedade seja contra, afinal, não pode haver equivoco quando todos me levam para a direção que não quero ir, dizendo seguir para um bom caminho? E se estiverem voltando, sem saber, e me privando de ir?
Ó céus, será possível nadar tanto e morrer na praia?

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Irrevogável

- “Não seja RIDÍCULO! JÁ CHEGA!”
Seus cabelos voaram e atingiram meu rosto, no momento em que decidida, e furiosa, saiu da fila e foi, imagino eu, para casa. O ambiente ficou tenso. As pessoas pararam de falar e começaram a olhar ansiosas para mim. Eu, de imediato, corei. Sempre fui muito tímido. Ainda sou. Mas ela sempre acaba me expondo, parece que faz questão de chamar atenção. Quando não no modo de se vestir, o faz nas atitudes. Como hoje. Não lembro bem o que vestia, mas, estava linda, era algo discreto combinado a um salto-alto. Sempre sai de salto. A desculpa é sempre a mesma: “Eu preciso diminuir nossa diferença de tamanho.” De fato ela não é muito alta. Mesmo de salto, ainda é uma cabeça menor que eu. Mas se não fosse esse bendito salto, ela não teria se irritado.
O ambiente ainda continua pesado. As pessoas me encaram como se eu tivesse a obrigação de sair da fila e ir atrás dela. Não mesmo! Há meses estou esperando a estréia deste filme e ela sabe muito bem disso, assim como estava ciente que ficaríamos horas na fila para poder adquirir o ingresso. Quando falei do salto, ela veio com a desculpa de sempre, mas depois de ficar uma hora e meia de pé, esperando, começou a reclamar. Eu bem tinha avisado, ela que não quis ouvir. Quando lhe falei isso, instantaneamente começou a se alterar e em vão, tentar me convencer de desistir. “Nem pensar! Nem que eu pegue só a última sessão.” E pronto. Simplesmente se foi. Eu nunca protesto, evito discutir e sempre faço suas vontades. Mas dessa vez, não.
As pessoas cochicham, e ainda me lançam olhares de repreensão. A fila caminha lenta. Creio que falta menos de meia hora para eu chegar ao caixa. No fim das contas tudo vai dar certo: vou assistir ao filme mais esperado de todos os tempos. E quanto a minha namorada... Nada que umas belas flores não resolvam.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Alimentador do medo, domador dos sentidos

Já passa das 18h. É final de junho, solstício de inverno no hemisfério sul. A terra se aproxima do afélio. O ar está seco e o céu estrelado, sem incidência de nuvens. Leves brisas gélidas roçam meu rosto a intervalos irregulares de tempo. Estou a caminho de casa, andando por uma calçada cheia de pessoas que cerca uma rua movimentada. Minha vizinha, e também colega de trabalho, não foi trabalhar hoje. Amanheceu com 40º de febre e uma forte dor de garganta. Por isso estou voltando sozinha para casa. É estranho. Apesar de meu emprego não ficar muito longe de meu apartamento, não me sinto segura. Onde estou agora há dezenas de pessoas a meu redor, então tudo bem. Mas daqui a cinco minutos, quando terei de entrar numa rua à direita, que certamente estará deserta e muito mal iluminada, os 10 cm de salto que uso não contribuirão para uma corrida, caso precise. “Mas que tolice! Pra quê correr? O que pode acontecer em três quadras até eu chegar ao prédio?” Meu coração bate mais forte, enquanto súbitos pensamentos negativos passam por minha mente.
Estou virando à direita. Como imaginei, a rua está vazia, mal iluminada pelas luzes dos postes e sombria por tamanha escuridão enfatizada pelas árvores. Inspiro profundamente e sigo. Um crescente temor sobe por meu corpo. “O que há demais em uma rua deserta?” Em vão, porém, fico repetindo isso para mim mesma como forma de estimular confiança.
“Faltam apenas duas quadras.” Fico mais aliviada, como agora, enquanto estou sendo iluminada pela luz do poste... Estava. A luz piscou e se apagou. A acluofobia me invade. Sinto um tremor que não é de frio. Apresso o passo em direção ao outro foco de luz que não está tão próximo, pois as seguintes lâmpadas estão queimadas também. Algo me pressiona e dificulta a respiração. Pânico. Por mais rápido que eu caminhe, a iluminação desejada não chega. Ouço o roncar de uma moto. O pânico aumenta. Seguro com mais força minha bolsa. Estou desesperada! E sufocando o desejo de gritar. O som se aproxima lentamente. Meus passos de estreitam, enfim chego à luz. Falta-me coragem para olhar para trás. Logo alcanço a outra quadra e o motoqueiro com todos os seus acessórios passa por mim. Abaixo a cabeça. Ele segue, mas não sei se me olha.
“Só essa quadra!” Pulsações frenéticas, tremor e medo. Muito medo. Ergo a cabeça e então paraliso: o motoqueiro está parado em frente ao portão de meu prédio. Continuo a caminhar e me surpreendo com o barulho das folhas das árvores, produzido pelo vento. “Ele não vai fazer nada. Se fizer, grito. Corro. Esperneio. Espanco-o.”
“Menos de três metros.” Inspira, expira. Inspira, expira...
Estou passando por ele. “Nada vai acontecer. Nada vai acontecer. Nada vai acontecer!” Sinto ele me encarar. Não há ninguém na portaria do prédio. “Nada vai acontecer. Nada vai acontecer. Pronto, já passei por ele. O perigo acabou!”
- Ei...
Sinto cada parte de meu corpo enrijecer de pavor. O medo faz doer. “Não pare, não pare...”
- Ei , moça.
A voz está mais próxima. “Continue andando, continue andando.”
- Por favor.
A voz está extremamente próxima. Paro. Inspiro. Giro meus calcanhares e fico de frente para ele.
- Sim?
Ele está sem capacete. Tem olhos negros, barba, cabelo curto. É alto, traja uma roupa preta. Traz um papel numa das mãos e a outra conserva no bolso.
- Este é o número 182?
- É... É sim.
- A senhora Márcia mora aqui?
- Márcia? Mo...
- Moro sim. É da farmácia?
Uma voz as minhas costas me sobre-salta. Minha vizinha pôs-se atrás de mim, coberta com espessos casacos e com uma péssima aparência.
- Sim. Aqui estão seus remédios, senhora. São R$25,00.
- Coff coff... Muito obrigada. Oi Carla, como está?
Perplexa, sentindo o medo se esvair, trazendo uma estranha sensação de alívio, e incrédula por deixar meu psicológico gerar tamanho pânico; por ser alimentada por minha mente; por exagerar na preocupação; por deixar uma fobia crescer e me domar.
- Carla?
Não, evidentemente, a Márcia não precisa saber disso.