terça-feira, 16 de junho de 2009

Quase tarde demais

- Júlia...
Eu o corrigi:
- Não me chame assim... Diga “meu amor”.
Ele fixou seus olhos nos meus, então pude ver sua tristeza. A luz cintilando em sua íris cor de mel. Estava imóvel, sentado a minha frente, com uma expressão vazia. Não consegui descobrir o que se passava em sua mente, mas toda a sua hostilidade me causou uma má sensação, algo parecido a uma despedida. Ele colocou a mão em meu rosto e começou a afagar minha bochecha.
- Você vai aprender a me odiar.
- Que história é essa?
O pânico tomou conta de minha voz.
- Shhhhh. Acalme-se.
Disse ele pacientemente. Respirei fundo e me mantive num piscar de olhos demorado.
- Você se tornou a minha vida.
- Mas você aprenderá a viver sem mim.
- Eu NÃO QUERO viver sem você.
- Você precisa. Tem que se salvar. Não sou o cara certo, não mereço o seu amor, você precisa entender. Não posso deixar que isto siga adiante, já é quase tarde demais. Eu preciso... Você precisa fazer isso antes que nada mais possa ser feito.
Senti o tremor subir por meu corpo. Minha pulsação acelerou a ponto de eu perder o ar. Não entendi o motivo de tudo aquilo. Estava confusa. Por que ele estava me deixando? Por que EU o odiaria? Como eu poderia odiar a pessoa que faz meu coração bater? Foi quase inevitável segurar o choro. Mas resisti. Não quis demonstrar fraqueza e, feito uma criança, começar a chorar. Perdi-me em meus devaneios e deixei vazio meu olhar. Fiquei vagando por nossos momentos juntos. Tudo parecia tão irreal agora. Voltei ao pub e ele não estava a minha frente, de súbito entrei em desespero, então me virei e vi que ele tinha se posto a meu lado. Suspirei aliviada e desviei-me de seu olhar. Por um instante podia jurar que ele colocaria a mão em meu ombro, mas então com uma das mãos ele segurou minha mão e com a outra começou a acariciar meus dedos. Olhei para sua face enquanto ele estava atento a minha mão. Sem eu perceber uma lágrima deslizou por meu rosto e caiu sob a mesa. Ele me encarou. Seu belo rosto se enrijeceu e de relance vi uma certa covardia: havia algo que ele temia em enfrentar.
- Eu te amo!
Sibilei. Imediatamente ele pressionou um dedo em meus lábios e me fez silenciar. A censura estava em sua expressão.
- Não... Por favor, por mim, seja forte. Agüente firme. Você precisa me esquecer.
Num impulso desvencilhei-me de suas mãos e agarrei seu pescoço. Abracei-o com toda a força. Tinha a esperança de que ficássemos assim, unidos, para sempre.
- Oh, por favor, eu estou apaixonada - Falei ao pé de seu ouvido. Com menos força e o choro atrapalhando a fala, repeti - Eu te amo.
Cuidadosamente ele desfez meu abraço, segurou meu rosto em suas mãos a uma curta distância que eu pude sentir sua respiração tocar minha pele e esperou até que eu o olhasse.
- Você estará melhor sem mim, eu garanto. Sem mim você terá tudo!
E antes que eu pudesse protestar, senti seus lábios nos meus num movimento suave e intenso. De imediato retribui seu beijo, querendo eternizar aquele momento, que a meu parecer foi rápido demais. Gentilmente ele se afastou, ainda segurando meu rosto e eu permaneci de olhos fechados querendo apenas sentir o amor em minhas veias.
- Sem mim você tem tudo, então... agüente... firme.
Num rápido movimento ele soltou meu rosto e quando abri meus olhos eu estava só. Ele já não estava dentro do meu campo de visão e, eu tinha certeza que agora, eu não fazia mais parte da vida dele.