quinta-feira, 28 de maio de 2009

Tenho medo

Tenho medo de um dia acordar, olhar pela janela e ver um dia, aparentemente, comum. Mas quando for lavar meu rosto, abrir a torneira e perceber que a água que corre pelos encanamentos já não é tão pura. E quando sentar-me para tomar o café, ouvindo as notícias no rádio, descobrir que o número de mortos aumentou, o de doações de órgãos diminuiu e que mais uma nova doença tem contagiado a população mundial. Ao me vestir e ir para o trabalho sob a garoa, ouvir a insatisfação por tê-la. No caminho, encontrar crianças e animais maltratados, machucados, famintos que talvez nunca tenham desfrutado de um carinho.
Quando em meu emprego chegar, deparar-me com estresse, reclamações, mau-humor e junto deles ter de passar o dia; lidar com arrogância; fornecer produtos e embalá-los com tristeza, por toda a destruição ambiental gerada para produzi-los. Quando o dia findar, voltar para casa e quase em minha frente ver um acidente acontecer, e ouvir os envolvidos discutirem sobre erros e quem pagará os prejuízos. Não ouvir pássaros cantando, não sentir alegria, não saborear o silêncio. Chegar então em meu lar, tomar um banho com a esperança de que ele purifique minha alma. Sentar-me no sofá, ver a hipocrisia explicita na televisão e então adormecer.
Tenho medo de sentir esse medo, e mais do que tudo, medo disso já acontecer. Temo ser alguém imparcial, não fazer o suficiente, enxergar tudo e não agir. Temo pela falta de amor, mas principalmente, pela vida. Não a minha. Pelas vidas que chegarão a este mundo e o encontrarão, lamentavelmente, destruído.